Este texto foi-me apresentado como de um manuscrito medieval encontrado em Salzburgo.
Um padre deve ser:
Ao mesmo tempo grande e pequeno,
Nobre de espírito, como se tivesse sangue real,
Simples e natural, como de estirpe camponesa,
Um herói na conquista de si mesmo,
Um homem que lutou com Deus,
Uma fonte de santificação,
Um pecador que foi perdoado por Deus,
Senhor de seus desejos,
Um servidor para os tímidos e fracos,
Que não se abaixa diante dos poderosos,
Mas se curva diante dos pobres,
Discípulo de seu Senhor,
Cabeça de seu rebanho,
Um mendigo com as mãos generosamente abertas,
Um portador de inumeráveis dons,
Um homem como num campo de batalha,
Uma mãe para reconfortar os doentes,
Com a sabedoria da idade, e a confiança da criança,
Voltado para o alto, mas com os pés na terra,
Feito para a alegria,
Conhecedor do sofrimento,
Separado de toda inveja, clarividente,
Que fala com franqueza,
Um amigo da paz,
Um inimigo da inércia,
Sempre constante...
Tão diferente de mim!
O oitavo dia realiza a circularidade da vida. O primeiro dia da semana é o Alfa e o oitavo, sendo o mesmo é o Ómega. O Dia do Senhor é aquele que começa no primeiro dia da semana e termina no primeiro dia da semana seguinte, o oitavo da anterior. O Dia do Senhor é o colo do Pai que acolhe continuamente. Felizes aqueles que vivem no Dia do Senhor.
quarta-feira, 12 de março de 2014
Missa com as crianças neste Domingo II da Quaresma
15/16 Março 2014 – Domingo II da Quaresma
Animação de Missa com crianças
Vocação de Abraão, pai do povo de Deus
Leitor 1 - Admonição
Deus chamou Abraão, há muito, muito
tempo atrás. Abraão deixou tudo e seguiu o chamamento de Deus. Deus recompensou
Abraão e prometeu-lhe que seria o pai de muitos povos. Abraão acreditou em
Deus. Os judeus, os cristãos e os muçulmanos, todos acreditam no mesmo Deus, o
Deus de Abraão. Este é o esquema da descendência de Abraão.
Pode ser projectado ou exibido através de 10 cartazes
erguidos por crianças/catekistas
LEITURA I Gén 12, 1-4a
Narrador – Leitura do Livro do Génesis (pausa)
Naqueles dias, o Senhor disse a Abraão:
Naqueles dias, o Senhor disse a Abraão:
Deus
– Deixa a tua terra, a tua família e a casa de teu pai e vai
para a terra que Eu te indicar. Farei de ti uma grande nação e te abençoarei;
engrandecerei o teu nome e serás uma bênção. Abençoarei a quem te abençoar,
amaldiçoarei a quem te amaldiçoar; por ti serão abençoadas todas as nações da
terra.
Narrador – Abraão partiu, como o Senhor lhe tinha ordenado.
(pausa) Palavra do Senhor.
LEITURA II 2 Tim 1, 8b-10
Leitor 2
Leitura da Segunda Epístola do apóstolo São Paulo a Timóteo (pausa)
Leitor 2
Leitura da Segunda Epístola do apóstolo São Paulo a Timóteo (pausa)
Caríssimo:
Sofre comigo pelo Evangelho, apoiado na força de Deus. Ele salvou-nos e
chamou-nos à santidade, não em virtude das nossas obras, mas do seu próprio
desígnio e da sua graça. Esta graça, que nos foi dada em Cristo Jesus, desde
toda a eternidade, manifestou-se agora pelo aparecimento de Cristo Jesus, nosso
Salvador, que destruiu a morte e fez brilhar a vida e a imortalidade, por meio
do Evangelho.
(pausa)
(pausa)
Palavra do Senhor.
EVANGELHO Mt 17, 1-9
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
Naquele
tempo, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, seu irmão, e levou-os, em
particular, a um alto monte e transfigurou-Se diante deles: o seu rosto ficou
resplandecente como o sol e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz. E
apareceram Moisés e Elias a falar com Ele. Pedro disse a Jesus: «Senhor, como é
bom estarmos aqui! Se quiseres, farei aqui três tendas: uma para Ti, outra para
Moisés e outra para Elias». Ainda ele falava, quando uma nuvem luminosa os
cobriu com a sua sombra e da nuvem uma voz dizia: «Este é o meu Filho muito
amado, no qual pus toda a minha complacência. Escutai-O». Ao ouvirem estas
palavras, os discípulos caíram de rosto por terra e assustaram-se muito. Então
Jesus aproximou-Se e, tocando-os, disse: «Levantai-vos e não temais». Erguendo
os olhos, eles não viram mais ninguém, senão Jesus. Ao descerem do monte, Jesus
deu-lhes esta ordem: «Não conteis a ninguém esta visão, até o Filho do homem
ressuscitar dos mortos».
Palavra da salvação.
Palavra da salvação.
ENCENAÇÃO enquanto o presidente proclama o Evangelho. Proclama ao ritmo
da encenação.
Jesus, Pedro, Tiago e
João sobem o Monte (presbitério).
Jesus passa por trás do
altar, veste uma túnica branca (ou deixa cair algo que trazia sobre a túnica
branca) e acendem-se projectores, sobre Jesus.
Moisés e Elias surgem do
fundo do presbitério e conversam com Jesus. Moisés traz uma Bíblia na mão.
Elias traz um candelabro de sete braços.
Duas pessoas deslocam uma
nuvem branca (cartolina, esferovite…), que estava encostada/escondida a um lado
e colocam-na atrás de Jesus.
Ao mesmo tempo que Jesus
avança para junto dos discípulos, a nuvem encobre Moisés e Elias, que assim
desaparecem e se vão embora.
Jesus e os discípulos
retiram-se do presbitério.
Ofertório
Comentador:
Na
quinta-feira, 13 de Março, celebrámos o primeiro aniversário da eleição do papa
Francisco que vamos comemorar nesta Eucaristia. Na procissão do Ofertório vêm
algumas bandeiras com que, no final da missa, mostraremos a nossa alegria e
daremos graças por este dom que Deus nos concedeu, o papa Francisco. A chave
que também apresentamos neste Ofertório simboliza a nossa comunhão com o
sucessor de Pedro em Roma, a quem Jesus entregou as Chaves do reino dos Céus,
na Terra. (Pode ser dito em modo de oração)
1 – Hóstias e Vinho
2 – Chave grande em
esferovite ou algo que sirva para o efeito
3 – Uma bandeira erguida
do papa Francisco
4 – Cesto com pequenas
bandeiras do papa Francisco
5 – Cestos do dinheiro
ACÇÃO DE GRAÇAS (depois da)
São distribuídas as
bandeiras às crianças (pelo menos) que participam na missa. Parabéns cantados
ao Papa com agitação das bandeiras.
Orlando de Carvalho
quinta-feira, 6 de março de 2014
Entrevista concedida pelo papa Francisco a Ferruccio de Bortoli
Passou-se um ano desde aquela simples " boa
noite" que mudou o mundo. O período de doze meses, vivido de modo intenso
- não só para a vida da Igreja – foi curto para a grande quantidade de novas e
profundas inovações pastorais de Francisco. Estamos numa pequena sala de Santa
Marta. Uma única janela abre-se para um pequeno pátio interno deixando ver um
pequeno ângulo de céu azul. O dia está bonito, primaveril, quente. O Papa surge
de repente, quase bruscamente, de uma porta com ar descontraído, sorrindo. Olha
divertido as várias notas que a ansiedade de um repórter senil colocara sobre
uma mesa. " Será que eles serão úteis? Sim? Tudo bem." O balanço de
um ano? Não, não gosto de balanços. "Faço-os apenas quinzenalmente com o
meu confessor.
Papa Francisco em entrevista, um ano após a eleição
Santo
Padre, muitas vezes telefona a quem lhe pede ajuda. E às vezes não acreditam
que seja o senhor.
Sim, já
aconteceu. Quando alguém liga é porque tem vontade de falar, quer fazer uma
pergunta, pedir um conselho. Quando era padre em Buenos Aires era mais simples.
E para mim continua a ser um hábito. Um serviço. Está dentro de mim. É verdade
que agora não é tão fácil fazê-lo, tendo em conta a quantidade de gente que me
escreve.
Há algum
contacto, um encontro que recorde com
articular afecto?
Uma
senhora viúva, de 80 anos, que perdeu o filho. Escreveu-me. E agora
telefono-lhe todos os meses. Ela está feliz. Faço de padre. Agrada-me.
O
relacionamento com o seu predecessor: alguma vez
pediu algum conselho a Bento
XVI?
Sim. O
papa emérito não é uma estátua num museu. É uma instituição. Não estávamos
habituados. Há 60 ou 70 anos o bispo emérito não existia. Veio após o Concílio
[Vaticano II, 1962-1965]. Hoje é uma instituição. O mesmo deve acontecer para o
papa emérito. Bento é o primeiro e talvez haja outros. Não o sabemos.
Ele é
discreto, humilde, não quer perturbar. Conversámos e decidimos em conjunto que
seria melhor que visse gente, saísse e participasse na vida da Igreja. Uma vez
veio aqui para a bênção da estátua de S. Miguel Arcanjo, depois almoçou na Casa
de Santa Marta, e após o Natal dirigi-lhe o convite para participar no
consistório e ele aceitou. A sua sabedoria é um dom de Deus.
Alguns
quiseram que se tivesse retirado para uma abadia beneditina longe do Vaticano.
Eu pensei nos avós que com a sua sabedoria, os seus conselhos, dão força à
família e não merecem acabar numa casa de repouso.
A sua
maneira de governar a Igreja parece-nos desta maneira: o senhor ouve todos e
decide sozinho. Um pouco como o padre geral dos Jesuítas. O papa é um homem só?
Sim e
não. Entendo o que quer dizer-me. O papa não está só no seu trabalho porque é
acompanhado e aconselhado por muitos. E seria um homem só se decidisse sem
ouvir ou fazendo de conta que ouve. Mas há um momento, quando se trata de
decidir, de colocar a assinatura, em que está sozinho com o seu sentido de
responsabilidade.
O senhor
inovou, criticou algumas atitudes do clero, sacudiu a Cúria. Com algumas
resistências, algumas oposições. A Igreja já mudou o que desejou há um ano?
Em Março
de 2013 não tinha qualquer projecto de mudança da Igreja. Não esperava esta
transferência de diocese, para dizer assim. Comecei a governar procurando
colocar em prática aquilo que emergiu no debate entre os cardeais nas várias
congregações [reuniões ocorridas antes do conclave para a eleição do papa]. No
meu modo de agir espero que o Senhor me dê a inspiração.
Dou-lhe
um exemplo. Falou-se do cuidado espiritual das pessoas que trabalham na Cúria,
e começaram a fazer-se retiros espirituais. Devia dar-se mais importância aos
Exercícios Espirituais anuais: todos têm direito a passar cinco dias em
silêncio e meditação, enquanto que antes, na Cúria, ouviam-se três pregações
por dia e depois alguns continuavam a trabalhar.
A ternura
e a misericórdia são a essência da sua mensagem pastoral…
É do Evangelho.
É o centro do Evangelho. De outra maneira não se compreende Jesus Cristo, a
ternura do Pai que o envia a ouvir-nos, a curar-nos, a salvar-nos.
Mas essa
mensagem foi compreendida? O senhor disse que a “franciscomania” não duraria
muito. Há alguma coisa na sua imagem pública que não lhe agrada?
Agrada-me
estar entre as pessoas, junto de quem sofre, ir às paróquias. Não me agradam as
interpretações ideológicas, uma certa mitologia do papa Francisco. Quando se
diz, por exemplo, que saio à noite do Vaticano para andar de comer de comer aos
sem-abrigo na Via Ottaviano. Nunca me veio isso à ideia. Sigmund Freud dizia,
se não me engano, que em cada idealização há uma agressão. Desenhar o papa como
uma espécie de super-homem, uma espécie de estrela, parece-me ofensivo. O papa
é um homem que ri, chora, dorme tranquilo e tem amigos como todos. Uma pessoa
normal.
Tem
nostalgia pela sua Argentina?
A verdade
é que não tenho nostalgia. Desejava ir ver a minha irmã, que está doente, é a
última de nós cinco. Gostaria de vê-la, mas isso não justifica uma viagem à
Argentina: telefono-lhe e isso chega. Não penso ir antes de 2016, porque na
América Latina já estive no Rio de Janeiro. Agora devo ir à Terra Santa, à Ásia
e depois a África.
Há pouco
tempo renovou o passaporte argentino. O senhor é, todavia, um chefe de estado.
Renovei-o
porque estava a caducar.
Desagradaram-lhe
as acusações de marxismo, vindas sobretudo dos EUA, após a publicação da
exortação “A alegria do Evangelho”?
Absolutamente
nada. Nunca partilhei a ideologia marxista porque não é verdadeira, mas conheci
muitas pessoas boas que professavam o marxismo.
Os
escândalos que abalaram a vida da Igreja estão felizmente para trás. No que diz
respeito ao tema delicado dos abusos sobre menores, um apelo assinado, entre
outros, pelos filósofos Besançon e Scruton para que o senhor faça ouvir a sua
voz contra os fanatismos e a má consciência do mundo secularizado que respeita
pouco a infância.
Quero
dizer duas coisas. Os casos de abusos são tremendos porque deixaram feridas
profundíssimas. Bento XVI foi muito corajoso e abriu uma estrada. A Igreja fez
muito a este respeito. Talvez mais que todos. As estatísticas sobre o fenómeno
da violência sobre as crianças são impressionantes, mas mostram também com
clareza que a grande maioria dos abusos ocorre no ambiente familiar e de
proximidade. A Igreja católica é talvez a única instituição pública a que se
movimentou com transparência e responsabilidade. Ninguém fez mais. E no entanto
a Igreja é a única a ser atacada.
Santo
Padre, o senhor diz «os pobres evangelizam-nos». A atenção à pobreza, a marca
mais forte da sua mensagem pastoral, é considerada por alguns observadores como
uma profissão do pauperismo. O Evangelho não condena o bem-estar. E Zaqueu era
rico e caritativo.
O
Evangelho condena o culto do bem-estar. O pauperismo é uma das interpretações
críticas. Na Idade Média havia muitas correntes que advogavam o pauperismo. S.
Francisco teve a genialidade de colocar o tema da pobreza no caminho
evangélico.
Jesus diz
que não se podem servir dois senhores, Deus e a riqueza. E quando formos
julgados no juízo final (Mateus, capítulo 25), contará a nossa proximidade à
pobreza. A pobreza distancia da idolatria, abre a porta à Providência. Zaqueu
devolve metade da sua riqueza aos pobres. E a quem tem os celeiros cheios do
próprio egoísmo, o Senhor, no fim, pede-lhe contas. O que eu penso da pobreza
expressei-o bem na “Evangelii Gaudium”.
O senhor
apontou na globalização, sobretudo financeira, alguns dos males que agridem a
humanidade. Mas a globalização arrancou da indigência milhões de pessoas. Deu
esperança, um sentimento que não deve confundir-se com optimismo.
É verdade, a
globalização salvou da pobreza muitas pessoas, mas condenou outras tantas a
morrer de fome, porque com este sistema económico torna-se selectiva. A
globalização que a Igreja concebe assemelha-se não a uma esfera, na qual cada
ponto é equidistante do centro e na qual, portanto, se perde a particularidade
dos povos, mas a um poliedro, com as suas diferentes faces, através do qual
cada povo conserva a própria cultura, língua, religião, identidade. A actual
globalização “esférica” económica, e sobretudo financeira, produz um pensamento
único, um pensamento débil. No centro não está a pessoa humana, só o dinheiro.
O tema da
família é central na actividade do conselho dos oito cardeais. Desde a exortação
“Familiaris consortio”, de João Paulo II, mudaram muitas coisas. Estão
programados dois sínodos. Esperam-se grandes novidades. O senhor disse dos
divorciados: não vamos condená-los, vamos ajudá-los.
É um
longo caminho que a Igreja deve fazer. Um processo que o Senhor quer. Três
meses após a minha eleição, foram-me colocados os temas para o sínodo, tendo-se
proposto discutir a contribuição de Jesus para o homem contemporâneo. Mas no
fim, gradualmente – o que para mim foram sinais da vontade de Deus – optou-se
debater a família, que atravessa uma crise muito séria. É difícil formá-la. Os
jovens casam-se pouco. Há muitas famílias separadas nas quais o projecto de vida
comum fracassou. Os filhos sofrem muito.
Nós
devemos dar uma resposta. E isso que o consistório e o sínodo estão a fazer. É
preciso evitar ficar pela superfície. A tentação de resolver cada problema com
a casuística é um erro, uma simplificação de coisas profundas, como faziam os
fariseus, uma teologia muito superficial. É à luz da reflexão profunda que se
podem enfrentar seriamente as situações particulares, mesmo aquelas dos
divorciados, com profundidade pastoral.
Porque é
que o relatório do cardeal Walter Kasper no último consistório (um abismo entre
doutrina sobre o matrimónio e a família e a vida real de muitos cristãos)
dividiu tanto os membros do Colégio Cardinalício? Como pensa que a Igreja pode
percorrer estes dois anos de caminho fatigante e chegar a um consenso amplo e
sereno? Se a doutrina é sólida, porque é que é necessário o debate?
O cardeal
Kasper fez uma apresentação belíssima e profunda, que será em breve publicada
em alemão, em que aborda cinco pontos – o quinto era o dos segundos
matrimónios. Ficaria preocupado se no consistório não tivesse havido uma
discussão intensa, porque não teria servido para nada.
Os
cardeais sabiam que podiam dizer aquilo que queriam, e apresentaram muitos
pontos de vista distintos, que nos enriqueceram. As discussões abertas e
fraternas fazem crescer o pensamento teológico e pastoral. Disto não tenho
medo, antes o procuro.
Num
passado recente era habitual o apelo aos chamados «valores não negociáveis»,
sobretudo na bioética e na moral sexual. O senhor não retomou esta fórmula. Os
princípios doutrinais e morais não mudaram. Esta escolha quererá talvez indicar
um estilo menos perceptivo e mais respeitador da consciência pessoal?
Nunca
entendi a expressão «valores não negociáveis». Os valores são valores, e basta,
não posso dizer que entre os dedos de uma mão há um que é menos útil do que
outro. Por isso não entendo em que sentido podem haver valores negociáveis. O
que devia dizer sobre o tema da vida, escrevi-o na exortação “Evangelii Gaudium”.
Muitos
países legislam as uniões civis. É um caminho que a Igreja pode compreender? E
até que ponto?
O
matrimónio é entre um homem e uma mulher. Os estados laicos querem justificar
as uniões civis para legislar diferentes situações de convivência, motivados
pela exigência de legislar aspectos económicos entre as pessoas, como por
exemplo assegurar a assistência na saúde. Trata-se de acordos de convivência de
vária natureza, de que não saberia elencar as diferentes formas. É preciso ver
os diferentes casos e avaliá-los na sua variedade.
Como será
promovido o papel da mulher na Igreja?
Também
aqui a casuística não ajuda. É verdade que a mulher pode e deve estar mais
presente nos lugares de decisão da Igreja. Mas chamarei a isto uma promoção de
tipo funcional. Só assim não se faz muito caminho.
É preciso
sobretudo pensar que a Igreja tem o artigo feminino «a»: é feminina desde as
origens. O grande teólogo Urs von Balthasar trabalhou muito sobre este tema:
princípio mariano guia a Igreja juntamente com o princípio petrino. A Virgem
Maria é mais importante do que qualquer bispo e de qualquer apóstolo. O
aprofundamento teologal está em curso. O cardeal Rylko, com o Conselho dos
Leigos, está a trabalhar nesta direcção com muitas mulheres especialistas em
várias matérias.
Meio
século após a encíclica “Humanae vitae”, de Paulo VI, a Igreja pode retomar o
tema do controlo dos nascimentos. O cardeal Martini, seu confrade, estava
convicto de que tinha chegado o momento.
Tudo
depende de como é interpretada a “Humanae vitae”. O próprio Paulo VI, no fim,
recomendava aos confessores muita misericórdia, atenção às situações concretas.
Mas a sua genialidade foi profética, teve a coragem de ir contra a maioria, de
defender a disciplina moral, de exercitar um travão cultural, de opor-se ao neomalthusianismo presente e futuro.
A questão
não está em mudar a doutrina, mas de se ter mais profundidade e fazer com que a
pastoral tenha em conta as situações e do que para as pessoas é possível fazer.
Também disto se falará no caminho do sínodo.
A ciência
evolui e redesenha os confins da vida. Faz sentido prolongar artificialmente a
vida em estado vegetativo? O testamento biológico pode ser uma solução?
Não sou
especialista nos argumentos biológicos. E temo que cada minha frase possa ser
equivocada. A doutrina tradicional da Igreja diz que ninguém é obrigado a usar
meios extraordinários quando se sabe que está numa fase terminal. Na minha
pastoral, nestes casos, aconselhei sempre os cuidados paliativos. Em casos mais
específicos é bom recorrer, se necessário, ao conselho dos especialistas.
A próxima
viagem à Terra Santa levará a um acordo de intercomunhão com os ortodoxos que
Paulo VI, há 50 anos, quase chegou a assinar com o patriarca Atenágoras?
Estamos
todos impacientes por obter resultados “fechados”. Mas o caminho da unidade com
os ortodoxos quer dizer sobretudo caminhar e trabalhar conjuntamente. Aos
cursos de catequese em Buenos Aires iam diversos ortodoxos. Eu passava o Natal
e o 6 de Janeiro com os seus bispos, que por vezes pediam conselho aos nossos
departamentos diocesanos.
Não sei
se é verdadeiro o episódio que se conta de Atenágoras, que teria proposto a
Paulo VI que caminhassem juntos e enviassem todos os teólogos para uma ilha,
para discutirem entre eles. A teologia ortodoxa é muito rica. E penso que eles
têm actualmente grandes teólogos. A sua visão da Igreja e da sinodalidade é
maravilhosa.
Dentro de
alguns anos a China será a maior potência mundial, com a qual o Vaticano não
tem relações. Matteo Ricci era jesuíta, como o senhor.
Estamos
próximos da China. Enviei uma carta ao presidente Xi Jinping quando foi eleito,
três dias depois de mim. E ele respondeu-me. Há relações. É um grande povo ao
qual quero bem.
Porque é
que o Santo Padre nunca fala da Europa? O que é que não o convence no projecto
europeu?
Lembra-se
do dia em que falei da Ásia? O que é que eu disse então? Eu não falei nem da
Ásia, nem da África, nem da Europa. Só da América Latina quando estive no
Brasil e quando devo receber a Comissão para a América Latina. Não é ainda a
ocasião para falar da Europa. Ela virá.
Que livro
está a ler actualmente?
“Pedro e
Madalena”, de Damiano Marzotto, sobre a dimensão feminina da Igreja. Um livro
belíssimo.
E não
consegue ver nenhum filme, que é outra das suas paixões? “A grande beleza”
venceu o Óscar [para melhor filme em língua estrangeira]. Vai vê-lo?
Não sei.
O último filme que vi foi “A vida é bela”, de Benigni. E antes revi “A estrada”
(“La strada”), de Fellini. Uma obra-prima. Também gostava de “Wajda”…
S.
Francisco teve uma juventude livre de preocupações. Pergunto-lhe: nunca
namorou?
No livro
“Papa Francisco – Conversas com Jorge Bergoglio” conto que tive uma namorada
aos 17 anos. E digo o mesmo no livro “O céu e a terra”, que escrevi com [o
rabi] Abraham Skorka. No seminário uma rapariga fez-me voltar a cabeça durante
uma semana.
E como
acabou, se não é indiscrição?
Eram
coisas de jovens. Falei disso com o meu confessor.(Grande sorriso)
Obrigado
Padre Santo.
Eu é que agradeço.
Entrevista do Santo Padre ao director do Corriere della Sera, Ferruccio de Bortoli, publicada em 5 de Março de 2014, neste jornal.
Tradução directa e através de diversos sites.
quarta-feira, 5 de março de 2014
Estamos a entrar na Quaresma, a dizer Carnaval!
Que valor deve ter para os cristãos este adeus, de terça-feira gorda, que se prolonga na Quarta-feira de Cinzas e até à Páscoa?
Que valor tem não comer carne?
Ou tratar-se-á de não alimentar a carne, cada um a sua carne?
Não comer carne tem sempre um valor simbólico que ultrapassa o simbolismo. A intenção de abstenção da carne vai constantemente recordar-me a razão porque procuro abster-me. Ainda que eu almoce fora de casa e no refeitório ou no restaurante não não tenha possibilidade de comer a não ser carne, vou recordar-me da minha intenção, vou pensar na Quaresma e em como a estou a viver ou a desejar viver. E a intenção de não comer a carne pode bem ser considerada como não a comer, ou o que isso representa, o desejo de proximidade com Deus e a submissão ao Espírito como fez Jesus ao ser chamado para aquela quaresma no deserto. Esta carne que comemos ou não comemos é um símbolo relativo. A carne foi alimento caro e proibido aos pobres, para que existisse em quantidade suficiente para os senhores. Mais recentemente, o preço do peixe subiu e a carne passou a ser alimento do pobre. O jejum quaresmal passou a fazer mais sentido se fosse relativo ao peixe. Na realidade, muitos fiéis passaram a comer cherne, peixe assado no forno, camarões, lagosta... para comerem bem sem cometer o pecado de comer carne na Quaresma. Um autêntico farisaísmo!
Cada um tem que definir a sua carne, sem, contudo, fugir à própria palavra. Quem um tem de descobrir o sentido da Quaresma para si, no quadro dos ensinamentos e da doutrina da Igreja acerca deste tempo litúrgico.
Continua a existir a outra interpretação para o adeus à carne: deixar de alimentar a sua própria carne. Não a sua necessidade fisiológica de alimentação, mas os desejos que a minha carne tem e que me afastam de Deus. De forma muito concreta, podemos questionar-nos que é mais importante: não comer carne? Ou abster-se de:
- Maledicência (falar mal dos outros)
- Perder tempo com coisas inúteis (jogos, programas televisivos de deseducação)
- Roubar tempo aos filhos
- E tantas outras coisas que fazem tão mal ao nosso espírito e são tão pedidas pela nossa carne!
terça-feira, 18 de fevereiro de 2014
A dignidade do Santíssimo Sacramento
Há dias, fui, com um grupo de alunos da minha turma de arte, visitar uma igreja.
À nossa espera estava o padre Pedro Lourenço, que nos acompanhou.
Logo no início informou-me que tinha retirado o Santíssimo do sacrário para 'estarmos mais à vontade'.
Eu, que me venho batendo para que durante os concertos que se realizam em igrejas seja atempadamente retirado o Santíssimo do sacrário e este fique com a porta não fechada, senti uma enorme satisfação.
Queira Deus que muitos outras pessoas responsáveis tomem idênticas atitudes, em louvor do Santíssimo Sacramento.
Orlando de Carvalho
sábado, 15 de fevereiro de 2014
Bíblia e cultura
Os judeus sabem tradicionalmente, desde há milénios, os 150 salmos de cor, o texto e o sentido, recitando-os em modo de oração consoante o seu sentimento e a oportunidade.
Aprendem-nos quando ainda são muito jovens (Lc 2,46: Volvidos três dias, encontraram-nO no Templo, sentado entre os doutores, a ouvi-los e a fazer-lhes perguntas. Lc 2, 52: E Jesus crescia em sabedoria, em estatura e em graça, diante de Deus e dos homens.). E guardam-nos até à morte (Mc 15,34; Sl 22,2: Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste).
Esta é seguramente uma das razões porque os judeus se distinguiram aos longo da História pela sua inteligência. Por uma questão religiosa, foram obrigados a aprender cedo a ler, a memorizar e a cogitar.
Fico muito triste quando estou nos encontros de catekese e verifico que crianças do 3º e 4º anos de escolaridade não sabem ler. Quantas vezes, os próprios pais têm dificuldade.
A leitura é um vício ou um hábito que não existe na nossa sociedade e se extingue cada dia. Pede-se a alguém que faça uma leitura na catekese, ou na missa, e são tantas as vezes que sai asneira, ou não sai mesmo nada.
Este divórcio de uma aprendizagem das letras está directamente relacionado com um desenvolvimento intelectual inferior.
Questiono-me com muita frequência: sou catekista, devia ajudar esta pessoa a ler melhor, para ler a Bíblia e para tirar maior proveito do progresso que a humanidade vive. Mas não é fácil abordar alguém e dizer-lhe para aprender a ler, ou que o filho precisa de aprender a ler melhor. E mesmo que a pessoa aceite, na prática vai continuar divorciada.
Este é um desafio importante que se coloca a todos os evangelizadores. Um desafio a que os jesuítas deram uma boa resposta nas Reduções da América do Sul, mas a que hoje temos dificuldade em sequer reconhecer o problema. Isto enquadra-se na problemática da Nova Evangelização.
domingo, 9 de fevereiro de 2014
Domingo V do Tempo comum - ano A
Evangelii Gaudium 138: a homilia é breve
Ser sal para a terra e ser luz para o mundo é o mandamento
de Jesus que o Evangelho deste Domingo propõe.
Que será em concreto ser sal para a terra? E luz para o
mundo? Jesus fala de um modo realista da utilidade do sal e da luz para as
pessoas.
Nos dias de hoje, se Jesus se dirigisse a crianças, poderia
falar de açúcar para exprimir a mesma ideia. Se a audiência tivesse repulsa dietética
em relação ao sal, se fossem hipertensos, por exemplo, Jesus poderia falar de
outros condimentos, consoante o gosto de cada um, pimenta, hortelã, canela,
piripiri, gengibre, louro…
Para que servem então
o sal, o açúcar e os condimentos em geral? Todos eles servem para dar gosto à
comida. Comer, nós temos mesmo que comer. Mas a refeição é tanto mais agradável
quanto mais saborosa for a comida. Comer uma refeição sem sabor ou mal saborosa
não produz a mesma alegria numa pessoa que comer uma refeição ou um petisco
saboroso, agradável. Estes condimentos existem – louvado seja o Senhor pela
grandiosidade e diversidade da Natureza que para nós criou – para tornar a
nossa vida melhor, mais agradável, nalguns casos, mais suportável.
Em relação à luz, Jesus nos nossos dias poderia dizer alguma
coisa nestes termos: se falta lâmpada no candeeiro e comprais lâmpadas para
guardar dentro de uma gaveta, para que vos dais ao trabalho. Melhor seria
poupar o dinheiro, se de qualquer maneira permaneceis às escuras. As lâmpadas
cumprem a sua função no candeeiro, pois guardadas na gaveta não iluminam as
pessoas da casa. E Jesus mandou aquelas pessoas do seu tempo serem luz diante
dos homens, através das suas próprias obras.
Luz para o mundo, pelas suas obras, isto é, guiar aqueles
que estão às escuras e aceitam ser iluminados, com o conselho em caridade,
sendo guia para a verdade, fazendo brilhar a Palavra de Deus que é Jesus Nosso
Senhor.
Jesus afirma que somos sal para o nosso próximo, Ele quer
que tornemos mais agradável a vida dos outros. Podemos fazê-lo ajudando cada um
e não prejudicando ninguém.
Jesus também nos quer luz diante do próximo pelo testemunho
das nossas vidas. Guiar luminosamente os outros à felicidade verdadeira, Jesus
Cristo, a vivência de um amor real. Pela pregação certamente, mas a
recomendação neste caso é pregar, não por palavras, mas por obras. Viver com
piedade, com evidente confiança no Senhor, de coração e mente puros, é iluminar
a vida dos homens em direcção à Luz eterna.
Ser sal e ser luz: tornar a vida das outras pessoas
mais amena, mais agradável e indicar-lhes o caminho para a Salvação eterna,
Jesus Cristo, Palavra de Deus.
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