quinta-feira, 7 de maio de 2015

Recordando o papa bom, S. João XXIII




Recordando o papa bom, S. João XXIII

Hoje, apenas hoje!
Procurarei viver pensando apenas no dia de hoje, sem querer resolver de uma só vez todos os problemas da minha vida.
Hoje, apenas hoje, terei o máximo cuidado na minha convivência: afável nas minhas maneiras, a ninguém criticarei, nem pretenderei melhorar, nem corrigir ninguém à força se não a mim mesmo.
Hoje, apenas hoje, serei feliz na certeza de que fui criado para a felicidade, não só no outro mundo mas também já neste.
Hoje, apenas hoje, adaptar-me-ei às circunstâncias sem pretender que sejam todas as circunstâncias a adaptarem-se aos meus desejos.
Hoje, apenas hoje, dedicarei dez minutos do meu tempo a uma boa leitura. Assim como o alimento é necessário para a vida do corpo, assim a boa leitura é necessária para a vida do espírito.
Hoje, apenas hoje, farei ao menos uma coisa que me custa fazer; e se me sentir ofendido nos meus sentimentos, procurarei que ninguém o saiba.
Hoje, apenas hoje, farei uma boa acção, e não o direi a ninguém.
Hoje, apenas hoje, executarei um programa pormenorizado. Talvez não o cumpra perfeitamente, mas ao menos escrevê-lo-ei. E fugirei de dois males: a pressa e a indecisão.
Hoje, apenas hoje, acreditarei firmemente - embora as circunstâncias mostrem o contrário - que Deus se ocupa de mim como se não existisse mais ninguém no mundo.
Hoje, apenas hoje, não terei qualquer medo. De modo especial não terei medo de apreciar o que é belo e de crer na bondade.

João XXIII, Papa

8 Mandamentos de Francisco aos sacerdotes


quarta-feira, 6 de maio de 2015

Pai da Mentira

Um oportuno artigo publicado na ACI, desmistificando algumas ideias sobre a Maçonaria.

Um ex-maçom explica detalhadamente a relação entre o demónio e a maçonaria
Por Blanca Ruiz
Serge Abad-Gallardo foi membro da maçonaria durante mais de 25 anos, chegou a ser mestre de 14º grau. Depois de uma peregrinação ao Santuário de Lourdes tudo mudou e começou seu caminho de conversão, que logo o levou a escrever um livro. Na entrevista ao grupo ACI ele explica também a relação que existe entre o demónio e a organização.
“Fiz parte da maçonaria e pensei que tinha que escrevê-lo primeiro para me entender mais e depois para contar às pessoas. Cada pessoa tem a liberdade para fazer o que ela quiser, mas na maçonaria não se fala francamente”, relata o autor do livro “Por que deixei de ser maçom”, editado apenas em espanhol.
“Através do meu livro quero demonstrar que o catolicismo e a maçonaria não podem ser praticados juntos”, explica o ex-maçom.
Serge é arquitecto e entrou na loja maçónica através um amigo, tentando encontrar nela as respostas às perguntas mais profundas do homem.
“Eu não pensava deixar a maçonaria. Tive alguns problemas sérios na minha vida e me perguntava qual a resposta que a maçonaria poderia me dar a esses problemas, porém não encontrei nenhuma resposta. Entretanto no caminho com Cristo sim as encontrei”, afirmou.
Abad-Gallardo contou que o caminho para deixar a Maçonaria foi difícil: “durante um ano ou ano e meio estava convencido que tinha encontrado a fé e não sabia se deveria permanecer na maçonaria, esse podia ser um lugar onde falaria aos maçons do Evangelho. Mas conversando com um sacerdote, ele me explicou que não adianta tentar falar-lhes da Palavra de Deus, porque eles não estavam dispostos a escutar”.
Após os repetidos comentários anticlericais de vários altos graus da Maçonaria, Serge não podia ficar calado e defendia a Igreja. Além das críticas à Igreja e ao Papa descobriu que no ritual do início do ano maçónico "se dava glória a Lúcifer". “Eles não dizem que se trata do diabo, mas usam a etimologia da palavra e dizem que é ‘o portador de luz’”, explica o espanhol ao grupo ACI.
Algo parecido também ocorreu quando viu que entre os altos graus da maçonaria elogiam a serpente do livro do Génesis, a mesma que tentou a Adão e Eva cometerem o pecado original. “Dizem que a serpente trouxe a luz e o conhecimento que Deus não queria conceder ao homem. Isto é uma perversão muito grave”, declara.
Conforme afirma Serge: “entre a maçonaria e o demónio há uma relação, mas não é tão directa. A maioria dos maçons não percebem a influência do demónio nos rituais maçónicos. Eles pensam, com a melhor das intenções, que estão trabalhando pela 'Felicidade da Humanidade' ou pelo 'Progresso da Humanidade', isto é, “não existe um culto abertamente ao diabo, mas elogiam com palavras e devemos perceber, o quanto é perigoso para um católico estar dentro de uma sociedade assim”.
O ex-maçom relata: "embora poucos maçõns saibam claramente da relação que a maçonaria tem com o demónio, cumprem estes ritos sabendo perfeitamente o que estão fazendo. Mas, segundo minha experiência, a maioria deles não percebem", "não devemos esquecer que o demónio é o 'pai da mentira'".
Conforme explica, esta relação indirecta com o demónio se manifesta de muitas maneiras, mas todas confluem em afastar as pessoas que entram na maçonaria da fé e especialmente da Igreja Católica. "A maçonaria tenta convencer que a fé e a Igreja são superstições e obscurantismo", recordou Serge.
Nesse sentido Serge Abad-Gallardo também explica: "o ritual maçónico influi na mente, no subconsciente e na alma das pessoas. O maçom olha para os símbolos e os rituais maçónicos como fossem verdades profundas e esotéricas".
Apesar de que "na maçonaria não existam ritos directamente satânicos, estas cerimónias constituem uma porta de entrada para o demónio".
Uma das palavras secretas e sagradas dos mestres maçons, conforme explica Serge, é “Tubalcaïn”, traduzida como “descendente directo de Caim”. "Já sabemos o que ele, Caim, fez. Ele foi inspirado pelo demónio a matar o seu irmão por ciúmes e ele é o modelo para os mestres maçons", afirma Serge.
"Os rituais não mudaram, somente tiveram pequenas mudanças. De fato, nos Altos Graus, é onde se encontra as referências mais esotéricas e ocultas, por volta do ano 1800, 70 anos depois que nasceu a Maçonaria em 1717”.
Nessa relação entre a maçonaria e o satanismo, Serge indica ao grupo ACI: "a maioria dos maçons estão iludidos por palavras altruístas e mentirosas e por isso não percebem a relação entre ambos".
De fato, explica que numa das tábuas maçônicas, isto é, um trabalho escrito e apresentado por um maçom, é explicado que "quem fundou o satanismo moderno foi o americano Anton Szantor Lavey, um irmão (maçom) que fundou em 1966 a Igreja de Satanás que actualmente é a principal organização satânica e de modelo para as demais".
"A maçonaria afasta de Cristo. Porque embora fale-se sobre Jesus Cristo no 18º grau dos Altos Graus maçónicos, não há nada a ver com o Jesus Cristo da Igreja Católica, pois o mencionam como um sábio ou filósofo qualquer", insiste.
"Existem maçons que vão ainda mais longe nesta blasfémia, pois excluem a divindade a Cristo e dizem que ele foi o primeiro maçom, um homem iniciado. Explicam que José e Jesus foram carpinteiros. E que a palavra 'carpinteiro' é a etimologia da palavra 'arquitecto' e todos os maçons, especialmente nos Altos Graus são Grandes Arquitectos", afirmou Serge.
Fazendo menção ao tema: "na maçonaria acreditam no 'Grande arquitecto do Universo', querem que acreditemos que este é o mesmo Deus do catolicismo, mas não é verdade. Às vezes conseguem enganar os católicos dizendo que ser maçom e ser católico é compatível por esta referência a Cristo".
Há dois anos Serge largou totalmente a maçonaria, mas afirma que o controle que esta organização tem sobre a sociedade francesa é crescente. “No meu primeiro trabalho o prefeito era maçom, mas ninguém sabia, o director do seu gabinete, o encarregado de urbanismo e eu também éramos maçons, e outros dois arquitectos da prefeitura onde trabalhava”, recorda.
“Quando tentaram aprovar a última lei sobre a eutanásia, há um parágrafo que faz menção à ‘sedação profunda’ que é a mesma expressão que aparece numa tábua maçónica de 2004, onde mencionam este tema. Quer dizer, que as leis actuais na França estão sendo feitas nas lojas maçónicas, dez ou quinze anos antes de serem votadas”, conta ao grupo ACI.
Nesse sentido afirma que “na maçonaria não existe fraternidade, nem amizade, porque tudo são redes. Todos ambicionam o poder político, social e económico”.

Publicado por Orlando de Carvalho

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Militantes ateus contra João Paulo II e a Cruz



Um ano após a morte do papa João Paulo II, a localidade de Ploermel, na região de
Morbihan, através do presidente da câmara, encomendou ao artista russo Paul Anselin uma estátua do papa viajante, e, através do Conselho Geral da Cidade, apoiou a construção do pedestal com um subsídio de 4 500 euros, sendo o trabalho artístico oferta do autor. A Federação do Livre Pensamento (grupo francês de activistas ateu e anti-cristão) impugnou em tribunal o subsídio, invocando a lei de separação entre o Estado e a Igreja, de 1905. E o tribunal deu-lhes razão. Grande era ódio que nutriam pelo santo papa!
Passados nove anos, os mesmos voltam a investir, com o apoio assinado de 2 habitantes da cidade e contra todos os outros, puseram novamente uma acção em tribunal. Argumentam que se sentem ofendidos com o símbolo de ostentação que é a Cruz no topo da estátua. Invocando a mesma lei, querem que a Cruz seja removida.
E o tribunal voltou a dar-lhes razão.
A Cruz tem que ser removida.
O perfeito actual é Patrick Le Diffon, mas não cumpre de boa vontade a ordem do tribunal. O artista já informou que não permite que a obra, propriedade intelectual, seja alterada. Resta levar dali para fora a imagem do santo papa com a Cruz, da praça a que, entretanto, a localidade deu o nome: Praça São João Paulo II.
A Luz amedronta as trevas, a vida enfurece a morte.
Como se vê no que se passa em Ploermel, os disparates que têm acontecido em França de fuga e ataque ao cristianismo, não é a vontade maioritária dos franceses, mas de uns quantos arrivistas e frustrados.
Além da remoção da estátua, resta o apelo para o Conselho de Estado francês.
Aos cristãos e às pessoas de bom senso resta a oração, além dos procedimentos legais.
São João Paulo II, rogai por nós.

 
Fotografia tirada na véspera da inauguração da estátua de João Paulo II, em Dezembro de 2006, com o presidente da câmara de Ploermel, Paul Anselin  (esq.) e Zurab Tsereteli, escultor russo, autor da estátua. 


sexta-feira, 1 de maio de 2015

Mártires da Arménia


A pretensa indignação dos dirigentes turcos acerca do vocabulário usada pelo Papa Francisco acerca do genocídio praticado pelos turcos otomanos contra o povo arménio trouxe-me à memória o que há uns 10 anos escrevi em 'Os Santos de João Paulo II', sobre este assunto.

O Papa João Paulo II esteve na Arménia e elevou ao altar, por duas vezes, arménios e missionários estrangeiros que foram martirizados neste país porque eram cristãos e não se renderam a renunciar à Fé em Deus para se salvarem da tortura e da morte.

Com a situação agora criada pelos turcos que, em vez de pedirem perdão pelos erros e crimes cometidos, armaram em vítimas cheias de falso pudor, o texto ganhou alguma actualidade e publico-o aqui.

Salvador da Capadócia e companheiros

A Arménia é uma daquelas muitas zonas do mundo que, ao longo dos séculos, vai estando sujeita à violência e ao saque de estados vizinhos mais poderosos, situações que muitas vezes são potenciadas por diferenças étnicas. Ora, a Arménia orgulha-se de ser a mais antiga nação do mundo com uma maioria de população cristã, o que acontece desde antes do ano 300. Nos últimos séculos, de um lado o Estado Russo tradicionalmente expansionista, do outro o Império Turco Otomano não menos imperialista, exerciam uma grande tensão sobre a Arménia. Em finais do século XIX e princípios do século XX, os turcos assassinaram centenas de milhares de arménios e provocaram a deslocação para o exterior de muitos mais. Tratou-se de uma das maiores tentativas de genocídio da História da Humanidade. Por esta razão, muitos tentam negar o estatuto de mártires da fé a Salvador da Capadócia e aos seus companheiros. Alegam essas pessoas que eles não teriam sido vítimas da sua Fé, mas da sua nacionalidade. Ora, não podemos esquecer que a muitos arménios foi dado escolher entre negar Cristo e viver, ou confessar Cristo e morrer.
Alguns optaram por negar Cristo e salvaram a vida. 

Salvador Lili (da Capadócia)

Nasceu Salvador Lilli, a 19 de Junho de 1853, na Capadócia. Foram seus pais Anunciação e Vicente Lilli. O nome vem-lhe, pois, da terra em que nasceu.
Em 1870 entrou para os franciscanos e em 1873 teve que deslocar-se para a Terra Santa devido à extinção das ordens religiosas em Itália. Foi ordenado padre em 1878, em Belém. Em 1880 é enviado para Marasco, na Arménia.
Além de exercer o sacerdócio, constrói escolas, hospitais, lares para os idosos e mais carenciados e, muito importante, ensina modernas técnicas higio-sanitárias, especialmente durante uma epidemia de cólera em 1891. Em 1890 fora nomeado pároco de Marasco. Em 1894 é enviado para a missão de Mujuk Deresi. Em 1895, face ao genocídio sistematizado que os turcos otomanos iniciaram, de arménios de todas as idades, de ambos os sexos, os superiores franciscanos mandam Salvador vir embora, mas ele responde-lhes:
- O pastor não pode abandonar as ovelhas em perigo. 
Em breve os turcos atacam a cidade e um dos feridos é o padre Salvador, que fica detido. Com ameaças e torturas vão tentando que os presos reneguem a fé cristã. Não conseguindo, levam-nos para Marasco e fecham-nos na igreja local, a 22 de Novembro de 1895. Os fiéis persistem em se negar a abjurar a sua fé e são assassinados a golpes de baioneta.
Poupam, no grupo, uma menina de onze anos que será posteriormente testemunha do martírio. São conhecidos sete companheiros de martírio de Salvador Lilli também franciscanos e naturais da Arménia, embora sejam muito escassos os dados sobre eles. Pouco mais sabemos que os seus nomes e que sofreram o martírio por amor a Cristo e ao Evangelho.
Eis os seus nomes:
Baldji Oghlou Ohannes
Khodianin Oghlou Kadir
Kouradji Oghlou Tzeroum
Dimbalac Oghlou Wartavar
Geremia Oghlou Boghos
David Oghlou David
Toros Oghlou David

Líderes cristãos enforcados na Arménia. Imagem comum ao longo dos séculos XIX e XX, perante os ataques de nações vizinhas.

Inácio Maloyan

“Dirijo uma saudação especial aos jovens, pedindo ao Senhor que eles sejam testemunhas corajosas do Evangelho. Durante a minha recente visita à Arménia, pude dar-me conta do apego do povo à fé cristã, cujo testemunho está presente em numerosos episódios da sua história! Este é o bonito testemunho que nos deixa também o Beato Inácio. Homem corajoso e cheio de fé, pôs o amor a Cristo no centro da sua vida e do seu ministério.
Quando a ameaça contra o povo arménio se tornou mais grave e prenunciou a iminência da perseguição, ele escolheu, a exemplo de Santo Inácio de Antioquia, seguir Jesus até às últimas consequências, derramando o seu sangue pelos irmãos. O seu exemplo convida todos os baptizados a recordar que foram mergulhados na morte e na ressurreição de Cristo, e que devem segui-lo todos os dias” – do discurso de Sua Santidade João Paulo II, a 8 de Outubro de 2001, após a beatificação de Inácio Maloyan.



Shoukrallah Maloyan nasceu em Mardin, na Arménia, actualmente na Turquia, no dia 19 de Abril de 1869. Era filho de Faridé e de Melkon Maloyan. Respondendo à sua vocação sacerdotal, estuda no Líbano de 1883 a 1888, altura em que adoece e volta a Mardin. Em 1891 volta ao Líbano, conclui os estudos e é ordenado padre em 1896. Ao mesmo tempo junta-se ao Instituto do Clero Patriarcal de Bzommar e adopta o nome de Inácio, em homenagem a Santo Inácio de Antioquia. A sua actividade eclesial desenvolve-se depois em locais muito diversos, em Alexandria, no Cairo, em Istambul. Em 1910 Inácio Maloyan é nomeado para a paróquia de Mardin, sendo-lhe cometidas as funções episcopais que o bispo Hovsep Goulian tinha deixado de poder exercer devido à idade avançada, em função da qual tinha pedido renúncia à Sé Apostólica. A 22 de Outubro de 1911 é nomeado arcebispo da minoria Católica Arménia de Mardin. O sultão do Império Otomano condecora-o por patriotismo com a Legião de Honra.
Entretanto começa a I Guerra Mundial. Na Turquia encetam-se perseguições à minoria arménia e especialmente aos arménios cristãos. A Dom Inácio são retiradas as condecorações anteriormente atribuídas pelo governo turco; todos os cristãos são demitidos do exército, polícia e função pública; todos os cristãos são forçados a entregar todas as armas que possuírem, sob pena de morte. A 30 de Maio de 1915, soldados turcos cercam a igreja de Mardin e a Sé Episcopal, sob a acusação de aí se esconderem armas. A 3 de Junho, o chefe de polícia Mamdooh Bek chega a Mardin. Dom Inácio é preso com muitos outros católicos, leigos e padres; aos restantes cristãos, os que não foram presos, é-lhes mandado permanecer nas suas casas, e eles assim fazem. As tropas turcas prendem então cerca de novecentos cristãos arménios. São submetidos a julgamento e tentados a converterem-se ao Islão. Dom Inácio respondeu: - Muçulmano? Nem pensar! Não rejeito nem a minha religião, nem o meu Salvador. Nasci no seio da Santa Igreja Católica e aprendi profundamente a sua doutrina, até ser um dos seus pastores. Acho que o derrame do meu sangue pela Fé é a coisa mais doce que posso fazer. Podem torturar-me e cortar-me aos pedaços, pois se for torturado por causa do amor Àquele que morreu por mim, tornar-me-ei numa das mais felizes pessoas e tenho a certeza que verei Deus no Paraíso. 

Foi então chicoteado e torturado.
Arrancaram-lhe as unhas dos pés. Uma semana depois, a 10 de Junho de 1915, Dom Maloyan, catorze padres e quatrocentos e dezassete leigos são conduzidos sob marcha forçada, através do deserto até ao local em que tencionam assassiná-los. Alguns vão sendo separados do grupo, uns são chicoteados, outros desaparecem. O bispo percebe que, a pouco e pouco, os turcos vão matando os elementos do grupo. Pede então a Mamdooh Bek que lhes dê um momento para orarem, ao que ele acede. Dom Inácio recolhe algumas migalhas de pão, consagra-as e distribui-as entre os seus companheiros de martírio. Segue-se então a chacina. Dom Inácio é deixado para último lugar, presenciado o martírio de todos os outros. Depois de todos mortos, o chefe dos algozes turcos, Mamdooh Bek, de má memória, voltou a dar a Dom Inácio a mesma possibilidade que tanto este como todos os outros, entretanto assassinados, haviam já recusado: - - Convertes-te ao Islão, e salvo-te a vida! 

A resposta foi a recusa esperada:
- Vivo e morro para o bem da minha religião e da minha Fé. Tenho todo o orgulho na Cruz do meu Deus e meu Senhor!
Caiu então sob os disparos das armas daqueles que tanto pareciam odiar a Fé Cristã.
O seu corpo terá irradiado luz durante três dias após o seu martírio.

Mapa de Ana Clara Carvalho

In Os Santos de João Paulo II, livro II, Orlando de Carvalho, Lusodidacta, Loures, 2005.
 



terça-feira, 28 de abril de 2015

Síntese das reflexões feitas nas comunidades do Patriarcado em preparação para o Sínodo 2016. Parte I


Foi publicada uma síntese das reflexões feitas nas comunidades do Patriarcado sobre a primeira parte da exortação Evagelii Gaudium, realizadas entre Outubro e Dezembro de 2014. Transcrevemos*.



O primeiro capítulo da Exortação Apostólica Evangelii Gaudium foi lido e meditado por vários milhares de pessoas do Patriarcado de Lisboa no âmbito da caminhada sinodal encetada em Outubro de 2014, rumo ao Sínodo Diocesano a realizar no ano de 2016. A presente síntese do relatório final do primeiro trimestre pretende apresentar as linhas gerais que foram reflectidas.



1. Constatações

As constatações dividem-se entre externas e internas, reflectindo, as primeiras, o olhar dos cristãos sobre o mundo e, as segundas, a auto-analise dos fiéis cristãos em relação à própria Igreja, em vários níveis.

Do ponto de vista das constatações externas, a reflexão identificou muitos aspectos que marcam o mundo dos nossos dias, mundo esse em que todos os cristãos estão envolvidos e de que fazem parte. Por um lado, identificaram-se aqueles aspectos que marcam as pessoas e a sociedade de uma forma mais negativa: o materialismo, o relativismo, a existência de preconceitos, o indiferentismo, o consumismo, o individualismo (e correlativamente a solidão), a ausência da questão sobre Deus, desconfiança generalizada quer em relação aos indivíduos quer em relação às instituições (incluídas nestas o Estado, a própria Igreja, mas também as instituições de base como o casamento e a família). Por outro lado, também se identificaram sinais positivos que surgem no mundo: procura da fraternidade, da interajuda, várias formas de voluntariado, sede de vida espiritual. Neste sentido, teve bastante relevo a leitura que os cristãos fizeram sobre os problemas sociais e culturais que se vivem no Patriarcado de Lisboa, nomeadamente as questões postas por uma sociedade plural, constituída por pessoas de diversas proveniências, e ainda as questões sociais mais prementes, relacionadas sobretudo com as pessoas mais fragilizadas, nomeadamente os idosos. Uma palavra central nesta reflexão foi a «desumanização», sensibilidade que percorre todos os sectores da sociedade.

Quando os cristãos dirigiram o olhar para si mesmos e para a Igreja como todo, assinalaram uma falta de fé generalizada e um desajuste muito grande entre aquilo que a Igreja ensina e a vida concreta dos baptizados. Outros aspectos assinalados visaram uma auto-reflexão ao estilo de exame de consciência, assinalando-se a facilidade para a crítica gratuita, a falta de disponibilidade para a correcção fraterna, a facilidade em fazerem-se juízos de valor sobre as pessoas e, ainda, uma forte tendência legalista e moralista. Referiu-se ainda a falta de conhecimento da Bíblia.

Identificaram-se também algumas dificuldades de forma objectiva em relação à capacidade de partir em missão: a falta de conhecimento sobre o modo de anunciar, a acomodação, o medo de ir só, o descrédito dos resultados, a falta de consciência da necessidade da evangelização e a indiferença. Como pano de fundo, muitas respostas identificaram a mundanidade, tal como descrita pelo Papa, como um dos aspectos marcantes da vida eclesial. Neste sentido, referiu-se ainda a dificuldade em transpor a mensagem cristã para o dia-a-dia e para os problemas de hoje.

Por outro lado, constatou-se ainda que a Paróquia continua a ser o grande campo de trabalho pastoral, com todos os desafios e apelos que isso traz, reconhecendo-se ainda a grande vitalidade dos movimentos para a Igreja de hoje.

Uma grande parte das respostas visava a necessidade de articulação entre estas duas realidades (paróquia e movimentos). O âmbito diocesano também foi visado na reflexão dos cristãos de Lisboa, sendo referido como essencial mas como realidade ainda a construir e a desenvolver.



2. Desafios

Os desafios foram analisados a partir das três funções principais da Igreja: a função sacerdotal; a função profética e a função real.

Do ponto de vista da função sacerdotal, onde se incluíram dimensões como a liturgia, a espiritualidade e os sacramentos, as respostas visaram vários aspectos, sendo de destacar a necessidade de uma formação espiritual mais profunda dos leigos, o que só se conseguirá com uma formação espiritual grande dos padres; a importância da confissão e a necessidade de ser disponibilizado mais tempo para este sacramento; a necessidade de se aplicarem de forma igual os critérios para a administração dos sacramentos, acabando com as disparidades de paróquia para paróquia.

O principal desafio colocado na função profética da Igreja é a sua renovação, rumo a um anúncio mais completo e abrangente de toda a vida das pessoas, e assim menos polarizado em poucos aspectos que por sua vez são absolutizados. Neste sentido, indicou-se também uma necessidade de renovação na comunicação eclesial, quer ao nível dos conteúdos, quer do vocabulário, assim como a sua adequação aos destinatários. Neste campo tem muita importância a utilização das novas tecnologias, que devem ser aproveitadas como veículos de evangelização.

Este aspecto foi assinalado a respeito, muito especialmente, da catequese. Por outro lado, as respostas dadas na caminhada sinodal indicaram a necessidade de acabar com homilias mal preparadas, quer por serem improvisadas, ou de fraca qualidade espiritual, mas também demasiado longas e imperceptíveis. Identificou-se ainda uma grande necessidade de um «primeiro anúncio» em muitas paróquias, ao qual devem estar articuladas estruturas que sirvam de garantia e sustento para a vivência daqueles que escutaram o apelo do Senhor. Por fim, identificou-se também a grande necessidade de fazer das igrejas espaços de acolhimento de todas as pessoas.

No âmbito da função real da Igreja, assinalou-se, de forma geral, a necessidade de uma maior proximidade dos padres às comunidades, realizando pontes entre os vários grupos da paróquia ou mesmo a nível inter-paroquial. Identificaram-se também muitos desafios na pastoral familiar (nomeadamente na preparação para o matrimónio e na pastoral de pessoas em situação irregular), na pastoral social (especialmente sobre o modo de a tornar lugar de evangelização), na pastoral da saúde (sobretudo sobre o modo de integrar os doentes na vida eclesial),na administração paroquial (de modo particular a necessidade de integração dos leigos), entre muitas outras dimensões da vida eclesial.

* Corrigimos gralhas sintácticas e eliminámos as adaptações que o texto tem originalmente ao malfadado Acordo Ortográfico. A Igreja é normalmente um depósito cultural.

Orlando de Carvalho

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Migração de morte

A migração foi sempre uma atitude de aventura e de risco. Abraão foi 'premiado' por Deus por ter tido a coragem de deixar a sua terra e partir em busca de uma terra onde 'talvez' corresse o leite e o mel, onde 'talvez' conseguisse chegar depois de uma viagem que ele não sabia se ia ser fácil ou difícil, breve ou demorada.
Antes de Abraão, a História da Humanidade fez-se de migrações dos primeiros humanos que percorreram todo o planeta, cruzando continentes, montanhas, pântanos, mares e oceanos, em busca de algum lugar onde corresse 'leite e mel', ou tranquilidade e bom clima.
Os hebreus foram perseguidos pelos egípcios, na sua fuga à escravidão, mesmo através do deserto, até serem salvos pelos acontecimentos do Mar Vermelho. O mundo que hoje conhecemos é fruto de migrações, em especial as mais recentes. Estamos a pensar no continente americano, na Oceania, em Israel e na Europa da União Europeia edificada sobre o trabalho migrante de portugueses, espanhóis, italianos, depois turcos e mais recentemente europeus de leste e toda a espécie de muçulmanos das mais variadas origens.
Os emigrantes foram sempre descriminados. Livros antigos da Sagrada Escritura ordenam aos fiéis que tratem com compaixão os estrangeiros, referindo-se aos emigrantes, com a mesma compaixão que ordena que sejam tratados os órfãos e as viúvas. A insistência nesta recomendação faz-nos pensar que, os judeus, mal recordados de como tinham sido tratados pelos egípcios, não respeitariam a dignidade humana dos estrangeiros que chegavam ao seu país.
A Europa acolheu a emigração, de modo especial na segunda metade do século XX. Os valores cristãos e a ênfase que lhes deu a Revolução Francesa e a revolução cultural que a acompanhou, valores humanos que foram todos bebidos na Bíblia Sagrada, levou à criação de um respeito pelos estrangeiros que chegavam, à concessão de direitos laborais e sociais idênticos aos dos europeus de origem, ao respeito pelas culturas de origem.
Mas sabemos que muitos filhos daquela Revolução Francesa tentaram apoderar-se dos tais valores bíblicos como se fossem invenção sua e mesmo antítese dos ensinamentos evangélicos. Usaram então uma inversão perversa dos factos e quiseram dar mais valor às culturas que chegavam que à cultura europeia. Surgem deste modo governos e autarquias, por toda a Europa, a colocar o Islão acima da Igreja. Estupidez masoquista!
A vida sem dignidade imposta nos países africanos e do Médio Oriente, onde o povo é escravizado, sempre que necessário com a invocação da autoridade religiosa e a corrupção dos dirigentes políticos e governantes provoca um dos maiores movimentos migratórios da História. O Paraíso, o Éden, o El Dorado, são a Europa. A Europa não tem lotação para tanto imigrante e o recurso é a entrada ilegal e forçada. Barcos atravessam o Mediterrâneo com passageiros em número muitas vezes superior ao recomendado e permitido pela segurança. Milhares de estrangeiros chegam à Europa, muitos milhares morrem afogados no Mediterrâneo. O Papa Francisco ergue a sua voz em defesa destes filhos de Deus que se sujeitam à morte e que morrem na procura de uma dignidade de vida que não lhes é permitida na Europa.
A BBC relata como a maldade acompanha alguns destes migrantes que se esquecem da sua condição e atacam e matam os companheiros de viagem que são cristãos, afogando-os no mar. Pedem encarecidamente aos cristãos europeus que os recebam, mas pelo caminho vão matando os cristãos que percorrem com eles um caminho em busca de uma salvação.
Confiamos sempre na misericórdia de Deus para com os pecadores, mas temos também de esperar justiça exemplar das autoridades europeias, porque estes casos não podem continuar.

Orlando de Carvalho