quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Fátima e João Paulo II e Ronald Reagan

 

Acredito na interacção entre a Igreja Militante e a Igreja Triunfante.

Não gosto quando nas Exéquias de alguém se fazem votos de que descanse em paz. Na paz do Senhor, mas não imagino que depois da morte desta vida é chegar ao Céu e descansar de papo para o ar. Assim, o Céu corria o risco de ser, como Antero de Quental proclamava, um lugar sensaborão.

Acreditamos nos envios de Maria, operados por Deus, para dar continuidade ao anúncio do Evangelho de Jesus numa acção missionária que por estes dias continua, pelos vistos realizada pelos cristãos e por Maria. Nunca ninguém referiu ter tido visões de Nossa Senhora em que ela comunicasse algo diferente do Evangelho que já tinha sido proclamado pelo seu Filho, o nosso amado Jesus.

Refiro algumas datas e factos.

13 Maio de 1917 – Primeira Aparição da Senhora “tão linda” aos Pastorinhos.

13 Julho de 1917 – Visão mostrada aos Pastorinhos do que a Igreja refere como a tentativa de assassinato de um Papa que só nasceria quatro anos depois.

Em Fátima, Nossa Senhora pede orações pela conversão da Rússia e a consagração ao seu Imaculado Coração.

20 Janeiro de 1961 – Nos Estados Unidos da América é eleito pela primeira vez um Presidente católico, John F. Kennedy.

13 de Agosto de 1961 – Início da construção do Muro de Berlim

26 Junho de 1963 – O Presidente Kennedy declara em Berlim: Ich bin ein Berliner (Eu sou berlinense)

20 de Janeiro de 1981 – Tomada de posse como Presidente dos Estados Unidos de Ronald Reagan, um protestante presbiteriano.

13 de Maio de 1981 – Tentativa de assassinato do Papa João Paulo II

13 de Maio de 1982 – João Paulo II peregrina a Fátima expressando explicitamente gratidão a Nossa Senhora de Fátima, e a Deus, claro, por a bala ter passado ao lado do coração, sem o matar.

7 de Junho de 1982 – Encontro entre Ronald Reagan e João Paulo II no Palácio Apostólico, para alinharem estratégias morais e políticas contra o expansionismo comunista.

25 de Março de 1984 – O Papa João Paulo II consagra na Praça de S. Pedro, o mundo ao Imaculado Coração de Maria.

9 de Maio de 1985 – O Presidente Ronald Reagan discursa em Lisboa, na Assembleia da República, homenageando a nação portuguesa e professando uma fé na humildade dos Pastorinhos e em Nossa Senhora de Fátima.

9 de Novembro de 1989 – Queda do Muro de Berlim

 

Vejo uma aliança (estarei a imaginar?) entre Nossa Senhora de Fátima, o Papa São João Paulo II e o Presidente Ronald Reagan que, por mandato ou inspiração divina, derrubaram o regime comunista soviético.

Talvez tenhamos aliviado o ardor das nossas orações, mas temos que insistir, como Jesus ensinou: insistir. Porque a Rússia volta a trazer a guerra a este mundo.

A seguir fica o discurso emotivo e tão saboroso para nós portugueses do Presidente Reagan no nosso Parlamento. O texto é o da Acta Oficial e convido à sua leitura pormenorizada.

A C TA

 

SESSÃO DA ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA, 25 de Janeiro de 2017

Formada a Mesa, o Sr. Presidente dos Estados Unidos da América ocupou o lugar à direita do Sr. Presidente da Assembleia, ficando ladeados pelos secretários da Mesa da Assembleia da República.

O Sr. Presidente: - Srs. Deputados, declaro reaberta a sessão.

Eram 12 horas e 20 minutos.
Neste momento, os deputados do PCP retiraram-se da Sala.

O Sr. Presidente da Assembleia da República: Sr. Presidente dos Estados Unidos da América, Sr. Primeiro-Ministro, Sr. Presidente do Supremo Tribunal de Justiça, Sr. Vice-Primeiro Ministro, Sr. Ministro de Estado, Srs. Ministros e demais Membros do Governo, ilustres e distintos convidados, minhas senhoras e meus senhores, Srs. Deputados, Sr. Presidente: Manifestou V. Ex.ª o desejo de visitar o Parlamento de Portugal, no decurso da jornada que acaba de fazer pela Europa.
Desvaneceu-nos esse propósito.
Muito nos apraz a sua presença.
Naquele, sentimos o desejo de um encontro: encontro de dois mundos, de dois povos, de duas culturas, de dois sistemas.
A satisfação que experimentamos com a sua presença radica no facto de ela ser a expressão soberana de um povo que o sufragou, de forma admirável, num acto de entusiasmo, de confiança e certeza.
Porque este encontro será dos mais relevantes no historial das nossas preocupações parlamentares, quisemos rodeá-lo da maior distinção, da maior dignidade.
Por isso estão connosco aqueles que, pela sua respeitabilidade e pelo prestígio das funções que exercem, se situam no mais elevado plano da nossa governação, da nossa justiça e dos quadros que traduzem o exercício do poder.
Se, pela sua presença, esta cerimónia ganha mais brilho sabemos e sentimos que ela é também a manifestação do respeito que lhes merece esta secular instituição.

Pela gentileza da sua presença, aqui ficam os nossos sinceros agradecimentos.
Sr. Presidente: Somos um povo com uma história de muitos séculos, que «Entre perigos e guerras esforçado» soube construir corajosamente a sua identidade e ganhar o direito incontestável de marcar a sua presença no concerto das nações.
Demos um contributo valioso para o património da Humanidade, dando novos mundos ao Mundo e sempre soubemos, com galhardia, defender, preservar e continuar o que fomos construindo desde a penumbra dos tempos.
É esse património moral e humano que, enriquecendo os povos, nos dá autoridade para nos afirmarmos como Nação independente e livre. E é aqui, onde os representantes do povo têm assento, que sentimos mais fortemente o valor dessa independência, a força dessa vontade, que é soberana e o desejo de emancipação bem próprio dos homens livres.
É aqui, no calor das discussões, no frémito das polémicas, que se vem garantindo que os povos só são verdadeiramente livres quando aceitam, reconhecem e aplaudem a liberdade dos outros.
No mundo conturbado em que vivemos, apesar da paz que apregoamos, não raro se levanta neste hemiciclo a voz da crítica austera e cáustica contra todos quantos, no Mundo, se não sentem capazes de honrar e respeitar a liberdade e independência que aos outros pertence.

Vozes do PS e do PSD: - Muito bem!

O Orador: - Nessa atitude está todo o peso das concepções que defendemos e assumimos como deputados eleitos por um Povo que soube libertar-se das grilhetas do silêncio.
Fazemos parte de uma Europa que pretende ganhar confiança e vontade para se reconstruir por caminhos novos e diferentes. Porém, no momento, menos segura do seu futuro e mais centrada sobre os seus próprios problemas, parece perder a perspectiva do Mundo. Ela que é pensamento que nunca se contenta, que desfaz de noite a teia que tecera de dia para, com novos fios mais fortes e seguros, recompor a que lhe dará a segurança do amanhã, vive sob a tensão de um equilíbrio que tem constituído o seu tormento mas que é também a sua glória.
Esta complexa vivência da Europa repercute-se no nosso país com incidências preocupantes. Elas são, porém, o melhor acicate para congregar os povos e promover e garantir a unidade que se deseja.
Europa que pretendemos seja um grito desenfreado de vontade de liberdade! O mesmo que outrora quebrara por toda a parte os quadros sociais tradicionais, numa vontade louca de emancipação e cuja comoção, partindo da França, absorveu todos os povos que a constituíam e se comunicou à América do Norte com a força e o vigor que, de forma imparável, transforma os sonhos que se desejam em realidades que se vivem.
Então, na América, surgiu a Declaração dos Direitos do Homem e se firmaram os princípios em que devia basear-se a constituição dos estados.
Pelo impulso da filosofia dos direitos do homem e da constituição do Estado, Benjamim Franklin, promoveu a consciência nacional; Washington fortaleceu o Estado; Thomas Jefferson doutrinou os seus fundamentos e Abraham Lincoln que, pela força da sua sedutora humildade, cavou mais fundo e de forma segura os alicerces de um Estado poderoso de uma grandiosa nação.
A América apostou no triunfo, fez-se bandeirante da democracia, paladina da liberdade.
Liberdade que é fé combativa, força moral, crença no valor da pessoa humana e na necessidade da sua auto-realização.
Desde então, os Estados Unidos foram como que uma terra sonhada, o paraíso onde o impossível se tornava realidade. Porém, depois, parece ter existido uma certa desilusão porque nem a América, nem as instituições ocidentais, em geral, foram capazes de preencher aquelas esperanças, todos aqueles sonhos.
Entendemos, por isso, que a América e a Europa terão de fazer um esforço continuado, numa correspondência empenhada ao serviço do homem, no sentido da pessoa humana.
Sem tutelas, sem subserviências, sem abdicações, olhemo-nos cordialmente, frente a frente, olhos nos olhos, com a força moral que nos assiste, num empenhamento sem reticências, com uma disponibilidade sem reservas, para que entre iguais não haja «Uns que sejam mais iguais do que os outros».
Os tratados que subscrevemos, as alianças que respeitamos, são para nós as determinantes de um compromisso sério e de um comportamento bem definido.
Mas, para além da letra dos tratados, há um outro compromisso mais fundo, verdadeiro e real que integra os nossos povos num mesmo conceito civilizacional, numa mesma perspectiva histórica, em ramos diferentes de uma mesma cultura.
Por ele haveremos de ser julgados na solidariedade dos nossos propósitos. Propósitos de concorrer, de forma eficiente e eficaz, para a realização da justiça, da liberdade e da paz entre os povos e entre os cidadãos de cada povo.
Penso como Camus que, através dos cinco continentes, irá prosseguir nos anos vindouros uma interminável luta entre a violência e a palavra.
As possibilidades da primeira são mil vezes maiores do que as da segunda.
Sempre pensei, porém, que se o homem que confia na condição humana é um louco, o que desespera dos acontecimentos é um covarde.
Doravante, a única honra será a de manter, obstinadamente, o formidável desafio de decidir, enfim, se as palavras são ou não mais fortes do que a violência.
É V. Ex.ª presidente de uma forte e grandiosa nação que colocou o homem no limiar do espaço e que, em golpes de audácia, tem levado a inteligência à permanente conquista do desconhecido na rota do imprevisível.
Nesse esforço admirável de reduzir os mistérios, de clarificar o desconhecido, a América está a contribuir de forma decisiva para alargar os espaços da ciência.
É uma aventura maravilhosa, mas temo que, seduzidos pela maravilha da descoberta, esqueçamos a grandeza dos homens que nos rodeiam.
Li algures que, hoje, raramente se pergunta o «Porquê» e até nem o «Para quê», já que somos tomados pela preocupação de saber o «Como» e se «Funciona bem».
O homem, transformado num domador de máquinas, corre o risco, como amiúde sucede aos domadores, de ser por elas devorado.

Entretanto, como o filósofo da antiguidade, penso que, por mais numerosas que sejam as maravilhas, nenhuma ultrapassará o homem.

O destino deste será também o destino da liberdade. Aqui, Sr. Presidente, gostaria de fixar o nosso encontro, o encontro de V. Ex.ª com o Parlamento de Portugal.

V. Ex.ª, como chefe supremo de um povo que tem feito da liberdade a força anímica dos seus projectos, é garantia da sua fecundidade; o nosso Parlamento, que da liberdade tem feito a trave mestra de todo o seu pensamento, não descurará as oportunidades de a de fender e consagrar.

Neste encontro, exaltada aquela preocupação, manifestados estes desejos, sinto que é possível, cada qual a seu modo, com os meios de que dispõe, unir-se numa acção apaixonadamente comprometida para realizar a justiça, para garantir a liberdade, para estabelecer a paz e termos, então, o direito à esperança no futuro que sonhamos.

Aplausos gerais.

1.ª O Sr. Presidente: - Concedo a palavra a S. Ex.ª o Sr. Presidente dos Estados Unidos da América, Ronald Reagan.

Aplausos gerais.

O Sr. Presidente dos Estrados Unidos da América (Ronald Reagan): - Tenho pena que algumas cadeiras à esquerda parecessem inconfortáveis.

Risos.

Sinto-me profundamente honrado por estar convosco neste Parlamento que é tão rico em história e onde a voz do povo português é ouvida.
Para nós, uma longa jornada está agora prestes a finalizar, longa mas frutífera em resultados e rica em recordações. Cimeiras com chefes de Estado mundiais, a juventude da moderna Alemanha, as calorosas recepções no Parlamento Europeu e em Espanha - tudo isto vimos e por tudo estamos gratos. Contemplámos também monumentos que testemunham a devastação do passado, a recordação da guerra e a crueldade do domínio totalitário. Por outro lado, vimos igualmente as prósperas cidades e nações da nova Europa e tivemos ocasião de conhecer melhor o seu povo livre. Que não restem dúvidas, todos estes factos constituem também monumentos ao futuro e ao espírito humano e à sua capacidade de esperança e de mudança, à sua paixão pela paz e liberdade.
E temos agora a honra de, finalmente, vir a Portugal, um local particularmente apropriado para um americano se despedir como também para trazer saudações, uma vez que os livros de História dos alunos americanos lhes ensinam que foi destas costas que os primeiros exploradores marítimos partiram, e que foi o engenho e a coragem dos cientistas e dos homens destemidos que tornariam possível um dia a descoberta de um novo mundo e de um novo pais.
E, a propósito, espero que não considerem impertinente da minha parte referir que alguém, que, como eu, teve as duas carreiras que eu tive - em Hollywood e em Sacramento, a capital da Califórnia -,tenha para com os Portugueses uma dívida especial. Foi afinal o vosso compatriota de há 4 séculos, João Rodrigues Cabrillo, que descobriu uma extensa faixa de terra ao longo do litoral norte-americano, que veio a ser conhecida por Califórnia. De facto, há algumas pessoas no meu país que afirmam que eu vivo há tanto tempo que o meu rancho, nas montanhas de Santa Inês, me foi vendido pelo próprio Cabrillo.

Risos.

Mas sei que é hábito de presidentes e estadistas falarem das grandes descobertas marítimas da vossa nação e do vosso passado. E não é certamente de estranhar que, ao olhar para trás através dos tempos, muitos fiquem maravilhados com uma pequena nação, que no século XV recusou seguir outras nações europeias devastadas pela guerra - que rejeitou conflitos e, em vez disso, dirigiu as suas aptidões para a exploração, para a aventura em novas regiões, para o desafio ao sonho, para acreditar em si próprio e no futuro. Consequentemente, esta visão duplicou a dimensão do mundo então conhecido e é encarado, com razão, como um acontecimento marcante na história da Humanidade.
Deste modo, a velha e gloriosa herança do vosso país cria um elo distante mas estreito entre os nossos países e enche qualquer americano, que aqui se desloque, de humilde gratidão e admiração por todos os feitos do vosso povo. Embora não esteja certo de compreendermos todas as alusões à mitologia greco-romana, sei que a maioria dos americanos - e não poucos luso-americanos - partilharia o sentimento do vosso poema épico Os Lusíadas:

Cessem do sábio Grego e do Troiano, as navegações grandes que fizeram. Cale-se de Alexandre e de Trajano, as vitórias que tiveram; que eu canto o peito ilustre Lusitano [...]

Mas nós devemos fazer mais do que celebrar hoje o ilustre lusitano do passado, pois os acontecimentos da última década indicam que mais uma vez os Portugueses iniciaram uma grande aventura; uma aventura que todo o mundo segue de perto. Uma vez mais os Portugueses estão a traçar um novo rumo, não só para Portugal, mas para toda a humanidade, especialmente para os povos do Terceiro Mundo com quem os laços há muito estabelecidos vos permitem dialogar com confiança, sabedoria e sinceridade especiais.
Em pouco mais de uma década a vossa nação movimentou-se rapidamente através de estádios de desenvolvimento que resumem a história deste século: de um vasto império e de uma ditadura a uma confrontação com uma ideologia totalitária, até finalmente uma viragem decisiva para um regime democrático. Embora seja sempre difícil distinguir entre as agitações dos acontecimentos diários e as grandes correntes da história, mesmo assim me permito arriscar uma previsão: os futuros historiadores reconhecerão na caminhada de Portugal a caminhada do nosso tempo, a caminhada do nosso século.
É que vós - o povo de Portugal - escolhestes a liberdade. Preferiram iniciar uma aventura em democracia. Permitam-me assegurar-lhes hoje que 237 milhões de compatriotas meus - e ainda muitos milhões mais acharão no vosso exemplo o seu próprio caminho para a liberdade - saúdam a vossa decisão e louvam de novo, nas palavras de Os Lusíadas, «o peito ilustre Lusitano».

A vossa aventura é importante para o nosso século, um século com tantas promessas e tantas tragédias. Devo afirmá-lo com severidade: acabo de ver lugares que nos recordam a destruição e o mal que o ódio humano pode causar.
Mas aqui no novo Portugal e por toda a Europa vemos a promessa do nosso século, uma promessa não só de progresso material - uma época em que os inimigos de há muito da Humanidade, a fome, a doença, e a pobreza, serão coisas do passado -, mas vemos igualmente a promessa de progresso no espírito humano, um progresso conducente ao dia em que todos os homens, mulheres e crianças da terra viverão em liberdade e terão o direito de se pronunciarem sobre o seu próprio destino.
Assim, nesta etapa final da nossa viagem pela Europa, uma viagem ao futuro bem como ao passado, permitam-me dizer-lhes o que penso ter descoberto. Quer a consideremos uma verdade revelada ou apenas uma grande história, nós aprendemos no génesis que existiu uma época em que a humanidade viveu em harmonia consigo própria e com Deus. Já alguém disse que o significado da história se encontra na história revelada do nosso regresso a essa época - um regresso doloroso e por vezes interrompido por desgraças e sofrimento. Por agora, deixarei tais pensamentos para os teólogos e historiadores. Mas o que sei é que tenho visto nestes últimos dias lembranças da tragédia e da grandeza do nosso tempo: ouvi a voz do século XX. É a voz da humanidade que se ouve em todos os séculos, em todas as épocas. E as palavras são inequívocas; elas evocam em nós a angústia, mas também a esperança: que as nações vivam em paz entre si. Que os povos mantenham a solidariedade que Deus preconiza.
Mas, tragicamente, este grande anseio sentido por todos os povos em todas as épocas nem sempre tem sido partilhado pelos seus governos - especialmente os governos modernos, cujos chefes e ideologias glorificam o Estado e promovem o culto do poder pessoal. No final da última grande guerra, a Europa e todo o mundo esperavam ter visto o fim dos conflitos e dos armamentos. Isso não iria, no entanto, acontecer. Mas, pelo menos, não repetimos o erro de épocas anteriores, o erro que afinal conduziu à guerra mundial, o erro de acreditar que é suficiente apenas desejar a paz. Em vez disso, aceitámos a realidade; tomámos a sério os que ameaçavam pôr fim à independência das nossas nações e dos nossos povos. E fizemos o que devem fazer os povos que dão valor à sua liberdade. Juntámo-nos numa grande aliança. E rearmámo-nos. Mas fizemo-lo apenas para que nunca mais fôssemos forçados - sob o peso das nossas ilusões traídas - a recorrer à violência.
Ninguém melhor do que os Portugueses, que têm com a Grã-Bretanha o mais antigo tratado de defesa mútua na história da Europa, sabe o valor de tais alianças e de uma tal prontidão militar para evitar a agressão e a guerra. E por isso trabalhámos em conjunto - o Velho e o Novo Mundo, a Europa e a América, Portugueses e Americanos. E a NATO resultou. Temos mantido a paz há 40 anos. Mantenhamos a paz por outros 40 anos. E ainda outros depois desses.

Aplausos gerais.

A contribuição militar de Portugal hoje em dia para a aliança ocidental continua a ter uma importância fundamental; as vossas bases são estrategicamente vitais, as vossas Forças Armadas estão a modernizar-se para alargar o seu papel na NATO - tudo isto testemunha ainda que a destreza bélica e o amor pela independência nacional são componentes intrínsecas do passado português.
Contudo, as vossas contribuições para a aliança são largamente ultrapassadas pelo exemplo do que estão a viver neste momento. É verdade que o Portugal democrático tem enfrentado problemas políticos, sociais e económicos; mas nenhuma democracia, principalmente nos seus primeiros anos, avança sem obstáculos.
Isto é verdadeiro para qualquer nação e especialmente em qualquer democracia. No meu país aprendemos, repetidamente, que os resultados da democracia só podem ser avaliados - não a curto, mas a longo prazo - se tivermos presentes os princípios nos quais ela se baseia e nos lembrarmos como Winston Churchill tinha razão ao recordar-nos que a democracia, na verdade, é a pior forma de governo. Excepto em relação a todas as outras.

Aplausos gerais.

A verdade essencial no âmago das democracias, portuguesa e americana, é a nossa crença de que o governo existe para bem do povo e não o contrário. E esta crença baseia-se numa visão essencial da nossa civilização: a dignidade do homem, o valor do indivíduo. Os antepassados da minha própria nação justificaram a nossa revolução com estas palavras na Declaração da Independência:

Todos os homens foram criados em condições de igualdade e dotados pelo seu Criador de certos direitos inalienáveis e entre estes direitos estão a vida, a liberdade e a busca da felicidade.

É esta confiança no indivíduo - o direito a falar, a reunir-se, a informar e a votar - que é o significado da democracia.

Aplausos gerais.

Os nossos governos democráticos não se baseiam no pressuposto de que o povo tem sempre razão; na verdade, dentro da estrutura dos nossos governos há salvaguardas contra os caprichos ou paixões da maioria. Mas os governos democráticos baseiam-se no pressuposto de que existe no homem vulgar uma sabedoria invulgar e que, ao longo do tempo, o povo e o seu direito de expressão política são a melhor protecção contra os inimigos mais antigos e mais poderosos da liberdade, contra o crescimento incontrolado e o abuso do poder do Estado.
Mas nem sempre é fácil conservar esta crença, especialmente quando o navio do Estado é abalado por tormentas. Haverá sempre os que perdem a fé e exortam ao pânico. Já ouviram as suas vozes algumas vezes, mas creio que aqui, na nação dos navegadores, há um respeito pela sabedoria de manter firme a rota que foi traçada. Por isso, deixem as crises vir. Sabemos que haverá sempre respostas se confiarmos no povo, se nos dirigirmos a ele, lhe apresentarmos os factos e nos apoiarmos nele para tomarmos as decisões correctas.
No meu próprio país aprendemos esta lição muitas vezes. Ninguém tinha mais razão para duvidar desta crença do que um dos nossos maiores presidentes e um dos fundadores do meu próprio partido político, Abraham Lincoln. Mesmo enfrentando uma Guerra de Secessão, entre vozes poderosas que lhe diziam que não se podia confiar no povo em questões de grande importância, Lincoln, com a sua sabedoria tipicamente rústica, soube explicar eloquentemente a causa da democracia ser, ao longo dos tempos, a forma de governo mais pragmática. «Pode-se enganar algumas pessoas sempre», disse ele, «e todas as pessoas durante algum tempo; mas não se pode enganar todas sempre».

Aplausos gerais.

Portugal e o seu povo estão a avançar: durante os últimos anos enfrentaram enormes problemas, mas mesmo assim a vossa democracia é forte e está intacta. Estão a adoptar o mercado livre, a entrar no Mercado Comum, estão a começar a crescer economicamente.
Esta experiência democrática e o desenvolvimento económico andam de mãos dadas. Quando, há alguns anos, falei no Parlamento Inglês, apontei a ligação entre a liberdade política e o crescimento económico, entre a democracia e o progresso social. Apontei também para a grande revolução em marcha no mundo, a grande saudade da liberdade pessoal e do regime democrático, emergindo cada vez mais, mesmo em países comunistas. No início deste século havia apenas um punhado de democracias, mas hoje em dia mais de 50 países, um terço da população mundial, vive sob governos democráticos. Observei igualmente que uma das forças motrizes deste progresso é o desejo de desenvolvimento económico - a compreensão de que são as nações livres que prosperam e os povos livres que criam melhores condições de vida para si próprios e para os seus filhos.
Esta ideia está a crescer em todo o mundo e em algumas nações está a causar conflitos e desordem. De um certo modo Marx tinha razão; o progresso económico está a gerar choques com velhas e arreigadas ordens políticas. Mas Marx estava enganado sobre onde tudo isto iria ter lugar, pois é o mundo democrático que é flexível, vibrante e que está em crescimento proporcionando aos seus povos níveis de vida cada vez mais altos, à medida que a liberdade cresce e se aprofunda. É no mundo colectivista que as economias estagnam, que a tecnologia está atrasada e que o povo está agitado e se sente infeliz.
Por isso, para onde quer que nos voltemos, há uma rebelião de espírito e vontade contra os velhos chavões de colectivismo; por todo o mundo os velhos gritos de «poder para o Estado» estão a ser substituídos por gritos de «poder para o povo». Por todo o mundo podemos observar uma movimentação em direcção a uma época em que o governo totalitário e o terrível sofrimento que causa será apenas uma recordação triste e distante.
É por isso que o que está a ser feito aqui em Portugal é tão importante. Quando falei na Grã-Bretanha fiz um apelo para uma acção concertada - para uma campanha global em prol da liberdade, uma estratégia internacional para o desenvolvimento democrático.
Não posso imaginar um local mais indicado para renovar esse apelo ao mundo do que aqui em Portugal, nem povo melhor preparado para avançar na causa do desenvolvimento democrático e liberdade humana do que o povo português. Que Portugal conduza de novo o mundo e que os Portugueses atravessem novamente pequenos e grandes mares, levando novas da ciência e da descoberta: a nova ciência da democracia, a descoberta da liberdade, para que resulte, prospere e perdure.
E, apresso-me a acrescentar, para que a liberdade possa garantir a paz. Nunca esqueçamos que a agressão e a guerra raramente são obra do povo de uma nação - pois é o povo que deve suportar a violência e sofrer o pior da guerra. Não, a guerra e a agressão no nosso século foram quase sempre obra de governos, de militaristas e ideólogos que os podem controlar.
É por essa razão que a guerra e a agressão têm poucos apoiantes: deixemos que a democracia se espalhe, que a voz do povo seja escutada, e então os fomentadores da guerra serão banidos e transformar-se-ão em párias. Não tenhamos receio, pois, na nossa cruzada pela liberdade, de proclamar ao mundo que a causa do desenvolvimento democrático é também a causa da paz.
Esta busca da paz tem ocupado muitos dos nossos esforços nesta jornada e através dos nossos contactos com a Comunidade Europeia. Agora, em Genebra, estão em marcha importantes negociações, que podem diminuir a hipótese de guerra, originando acordos verificáveis e a primeira verdadeira redução de armamento, de incrível poder de destruição actualmente ao nosso dispor. Assim, também, os Estados Unidos estão a avançar na pesquisa tecnológica, que esperamos um dia reduza a hipótese de guerra, diminuindo a dependência de uma estratégia baseada na ameaça de uma retaliação nuclear.
Sei que partilham as minhas esperanças de que os nossos esforços para alcançar soluções negociadas tenham êxito. Sei igualmente que compreendem que trabalhar para este objectivo significa continuarmos fortes na nossa aliança e na nossa determinação de proteger a liberdade e independência das nossas nações.
A nossa concordância neste ponto é a razão pela qual podemos esperar que um século, que assistiu a tanta tragédia, possa tornar-se igualmente num século de esperança. Tanto nos Estados Unidos, como aqui em Portugal, na Europa e em todo o mundo redescobrimos a preciosidade que é a liberdade - a sua importância para a causa da paz e para restaurar na humanidade a dignidade a que tem direito.
Esta crença na dignidade humana assinala a verdade final, na qual se baseia a democracia - a crença de que os seres humanos não são apenas um outro elemento do universo material, não são meros grupos de átomos. Pelo contrário, acreditamos numa outra dimensão, um lado espiritual para o homem; encontramos aí uma fonte transcendente para as nossas pretensões de liberdade humana, para a nossa sugestão de que os direitos inalienáveis vêm de um ser superior a nós próprios.
Ninguém fez mais para relembrar ao mundo a verdade da dignidade humana - assim como a verdade de que a paz e a justiça começam em cada um de nós - do que o homem que veio a Portugal há alguns anos, após um terrível atentado à sua vida. Veio aqui a Fátima, local do vosso grande santuário religioso, para cumprir a sua devoção especial a Maria, para implorar perdão e compaixão para os homens, para rezar pela paz e pelo reconhecimento da dignidade humana no mundo.
Quando conheci o Papa João Paulo II, há 1 ano, no Alasca, tive a oportunidade de lhe agradecer pela sua vida e pelo seu apostolado. E ousei sugerir que é no exemplo de homens como ele e nas orações de pessoas humildes em todo o mundo - pessoas humildes como os pastorinhos de Fátima - que reside um poder maior do que todos os grandes exércitos e estadistas do mundo.
Isto é algo que os Portugueses podem igualmente ensinar ao mundo, pois a grandeza da vossa nação encontra-se no povo. Pode-se constatar isso na sua vida diária, nas suas comunidades e cidades, e especialmente nas pequenas igrejas de província, espalhadas pelo campo e que falam de uma fé que justifica todas as reivindicações da humanidade pela dignidade e liberdade.
Quanto a mim é aí que reside o poder; é aí que reside a compreensão do significado da vida e do objectivo da história. E aí está a base para uma ideia revolucionária, a ideia de que os seres humanos têm direito a escolher o seu próprio destino.

Aplausos gerais.

Espero que me perdoem se terminar com uma história sobre os primeiros tempos da nossa democracia.
Num momento crítico da nossa história, quando a desunião e a discórdia reinavam por todo o lado, um homem, famoso como inventor e cientista, interrompeu os trabalhos da Assembleia Constituinte, que tentava, então, formular a Constituição dos Estados Unidos. Foi Benjamin Franklin que se ergueu para dizer aos seus colegas delegados que já tinha vivido muito e tinha principalmente aprendido que nem o pássaro mais pequeno cai do céu sem que Deus saiba. Então ajoelhou--se e pediu aos delegados que se ajoelhassem com ele para invocarem uma orientação maior do que a deles próprios.
Uma grande democracia nasceu após aquelas palavras, tal como uma grande democracia nasce nos nossos tempos em Portugal. E nasceu porque os Portugueses são um povo que ama a liberdade e a paz, que está pronto a sacrificar-se por uma vida melhor para os seus filhos. Mas acima de tudo nasceu porque os Portugueses não têm medo de reconhecer a existência de uma lei mais sublime, que acciona os acontecimentos da humanidade.

Aplausos gerais.

Uma lei mais sublime da qual emana a liberdade e a dignidade humanas.
Existe na nossa língua uma palavra que me lembro de ter usado num discurso, durante o meu primeiro ano de mandato, uma palavra muito útil, evocando a lembrança de factos passados, «saudades».

Aplausos gerais.

Mesmo durante o pouco tempo que eu e Nancy estivemos convosco em Portugal aprendemos a apreciar mais profundamente o seu significado. Sentiremos a vossa falta; e a falta de Portugal. Esperamos que um dia nos permitam voltar a visitá-los de novo para, como aqui dizem, «matar saudades».

Aplausos gerais.

Até esse dia e como representantes do povo americano expressamo-vos os nossos melhores votos - temos esperança no futuro dos nossos países - um futuro que sabemos irá ser democrático e livre. Um futuro em que, também sabemos, o povo português irá escrever um outro grande e inspirado capítulo da história.
Obrigado e que Deus vos abençoe.

Aplausos gerais.

 


terça-feira, 8 de setembro de 2026

Por que cantamos os parabéns a Nossa Senhora a 8 Setembro?


No lugar onde, segundo o Protoevangelho apócrifo de Tiago, se situava a casa dos pais de Maria, Mãe de Jesus, em Jerusalém, foi construída no século V uma igreja, hoje Basílica de Santa Ana. 

A dedicação dessa Basílica aconteceu num dia 8 de Setembro e, por esse motivo, passou a celebrar-se a Natividade de Maria, nesse dia. Primeiro na Igreja Bizantina e depois também no Ocidente, sob o Papa Sérgio I, no século VII.

 

 

Basílica de Santa Ana

 

Ora, celebrando o nascimento, ou natividade, de Maria a 8 de Setembro, ela teria sido concebida por seus pais, Ana e Joaquim, 9 meses antes.

Assim, o Dogma da Imaculada Conceição (de Maria por seus pais) foi proclamado pelo Papa Pio IX, a 8 de Dezembro de 1854, e a celebração desta festa entrou no Calendário Litúrgico precisamente a 8 de Dezembro, de cada ano.

NOTA: Quando rezamos:

Ó Maria concebida sem pecado, não nos referimos a um eventual e sem sentido pecado dos seus pais, mas ao facto de Maria ter nascido isenta de qualquer pecado.

Orlando de Carvalho
 

sábado, 29 de agosto de 2026

Maria sinal de comunhão ou divisão?

 

Frauenkirche (Igreja de Nossa Senhora), Igreja Luterana, Dresden, Alemanha

 

Maria na Cristandade

Alguns teólogos

Alguns teólogos cristãos, mas não católicos e também alguns teólogos católicos partilham a opinião de que Maria (a par do Papa) é a causa principal da divisão entre cristãos.

Eu tentarei provar a tese precisamente contrária: Maria é sinal de União entre os povos.

Maria, sinal de União entre os povos, mas essencialmente entre católicos, as várias vertentes protestantes e ortodoxos porque há outras seitas como as testemunhas de Jeová que não são cristãs nem tão pouco religiões uma vez que nem sequer aceitam, no caso das testemunhas de Jeová, nem sequer aceitam Jesus Cristo como Deus, filho de Deus. E a generalidade das seitas não aceitam Deus Santíssima Trindade por isso não me deterei nesses casos, que surgem normalmente por inspiração, talvez literária, talvez filosófica, de iluminados, que pregam “afirmações” que não condizem ou estão em contradição com o Evangelho.

E saltando já para o que surgirá nas conclusões, Maria em todas as aparições reconhecidas pela Igreja nunca fez qualquer oposição ao Evangelho, incitando sempre ao cumprimento dos ensinamentos do seu Filho Jesus.

Com apenas três factos, defenderemos a tese de Maria sinal de comunhão na Igreja.

 

Concílio de Éfeso

Mas aquele Consolador, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, vos ensinará todas as coisas e vos fará lembrar de tudo quanto vos tenho dito. (Jo 14,26)

Quando Jesus pisou este solo em que nós hoje nos movemos, o Evangelho anunciado é o mesmo que hoje proclamamos, mas era tudo muito diferente. Não havia Igreja estruturada, nem sacramentos, nem muitas outras coisas. E foi ainda no tempo dos Apóstolos que foi escolhido Matias para ocupar o lugar deixado vago por Judas Iscariotes, que foi revogada a lei judaica sobre alimentos proibidos, e ao longo de dois milénios a Igreja, sempre na esperança de seguir a inspiração do Espírito Santo tem adaptado o acessório aos tempos, mantendo sempre a fé inicial transmitida por Jesus e depois de geração em geração e aprofundando essa fé.

No ano 431 realizou-se um importante Concílio, na Grécia, na cidade de Éfeso. A principal decisão que os padres conciliares tinham que tomar era sobre a natureza de Jesus. Jesus era Deus ou era homem ou era um anjo ou o que era?

Sempre invocando o auxílio do Espírito Santo, porque havia muitas correntes de opinião, que disputavam entre si as suas concepções e por vezes até de forma violenta, decidiram declarar que em Jesus coexistiram sempre duas naturezas: a natureza humana e a natureza divina. Jesus fora sempre pessoa e Deus ao mesmo tempo.

Uma multidão de devotos aguardava no exterior a decisão dos Padres Conciliares. Quando foi anunciada, nas varandas, a decisão, o povo explodiu de alegria. Talvez não porque tivessem a noção teológica do que se tratava sobre a natureza teológica de Jesus, mas porque deste modo, Maria, ao ser mãe do homem Jesus, era também Theotokos, a Mãe de Deus.

 

Lutero e Maria

Enquanto esteve escondido, simulando-se que estava preso, Martinho Lutero (1483-1586) escreveu um longo comentário ao Magnificat, em 1521, onde deixa clara a sua devoção a Maria.

Lutero nunca, em sua vida, atacou a figura de Maria. Sempre reconheceu a sua fé, humildade e exemplo para os cristãos. Ao contrário de outros chefes da Reforma que puseram e põem em causa o estatuto da Mãe de Jesus.

Do seu comentário ao Magnificat, podemos destacar alguns pontos que ele defende.

·        A Virgindade Perpétua de Maria como dogma.

·        A Imaculada Conceição de Maria, embora a Igreja só em 8 de Dezembro de 1854 tenha reconhecido oficialmente este dogma.

·        Divergiu de Roma ao afirmar que não se devia rezar a Nossa Senhora, nem pedir a sua intersecção, porque só Jesus salva.

·        Rejeitou alguns títulos atribuídos a Nossa Senhora, como, por exemplo, Rainha dos Céus, por considerar que isso era idolatria.

·        Afirmou que Maria não foi salva por seu mérito, mas por graça de Deus. Aliás, os luteranos têm um problema com a questão do mérito e da graça.

·        Lutero aceitava Maria como Mãe de Deus, o seu principal título, Theotokos, mas era contra qualquer outro título ou oração.

Grande ponto de divergência com a Igreja de Roma: para Lutero, Maria não deve ser venerada por si mesma, pelas suas virtudes ou méritos, mas porque Deus fez na sua pequenez e insignificância grandes coisas. Deste modo, todo o louvor a Maria será um louvor à graça de Deus atuante nela.

Para Lutero, acreditar na possibilidade de intercessão de Maria constituía idolatria. Deste modo, creio que negava a comunhão dos santos que professamos no Credo.



Nossa Senhora de Walsingham, Santuário de Walsingham, Norfolk, Inglaterra


Maria em Inglaterra

Em 1061, Lady Richeldis de Faverches, uma fidalga inglesa, que vivia em Walsingham, Norfolk, no nordeste de Inglaterra, teve visões de Nossa Senhora, em que Maria lhe mostrou a sua casa em Nazaré, onde ocorreu a Anunciação. Foi a forma de levar a senhora Richeldis à Terra Santa em peregrinação espiritual, pois decorriam as Cruzadas e a viagem física era muito perigosa.

A pedido da Virgem Maria, construiu-se em Walsingham uma réplica da Casa de Nazaré.

Na sua louca tentativa de destruir a Igreja de Roma por ódio e obstinação sexual em relação às mulheres e ao casamento, em 1538, o Rei Henrique VIII mandou destruir a Casa de Nazaré, em Walsingham.

O tempo passou.

Hoje, em Walsingham há dois santuários de Nossa Senhora, um da Igreja de Inglaterra (anglicanos) e outro da Igreja de Roma (católicos). Bem perto um do outro. Peregrinações de católicos de longe, da Índia, por exemplo, que se consideram evangelizados pelo Apóstolo São Tomé, vão até ao Santuário Católico.

No meu critério, a principal importância deste local e desta invocação de Nossa Senhora é ser comum a católicos e anglicanos e ambas as confissões considerarem e venerarem Nossa Senhora de Walsingham a padroeira nacional de Inglaterra.

Eis Maria factor de unidade!



Católicos e não católicos em Fátima, Altar do Mundo

Todos os portugueses já peregrinaram a Fátima algumas vezes. Pelo menos uma vez. Alguns várias vezes ao ano.

Deparamo-nos com pessoas de todas as raças. Missas, celebrações e orações em todas as línguas. Já participei numa recitação do terço, em que um mistério foi em árabe. Bem sabemos que vários católicos não acreditam em Fátima (não é dogma de fé, não é obrigatório acreditar ou aceitar), mesmo padres ordenados escrevem livros a atacar Fátima. Que pensar? Eu penso que é daqueles casos que se enquadram no texto evangélico que diz: Muitos são os chamados, mas poucos os escolhidos. E na mesma passagem do Evangelho, Jesus prescinde daqueles que convidou a manda buscar todos os “vagabundos” que encontrarem nas ruas.

Monsenhor Luciano Guerra, então Reitor do Santuário de Fátima, permitiu que um grupo de budistas tibetanos, chefiado pelo Dalai-Lama, rezasse na Capelinha das Aparições. Insurgiram-se alguns católicos mais conservadores e o seu ruído teve severas consequências. O Santuário de Fátima que desde sempre tivera o estatuto de Santuário Diocesano, foi classificado como Santuário Nacional, passando a sua tutela diretamente para a Conferência Episcopal Portuguesa, sob a ameaça velada de passar a ser considerado internacional e passar para a jurisdição da Santa Sé. E Monsenhor Luciano Guerra foi substituído no seu cargo.

Facto é que pessoas muito diferentes, nacionais e estrangeiros, continuam a afluir com devoção ao Santuário de Fátima, orando pela paz. Lembremos que a paz é o primeiro dom do Ressuscitado. E se alguns vão por turismo, talvez todos conheçamos casos em que esse turismo se transformou em fé. Costumamos falar de conversões em Fátima. Pessoas que vão, porque vão acompanhar amigos, passear, e chegam a Fátima e sentem algo e passam a fazer parte dos peregrinos habituais de Fátima, convertem-se, mudam e aceitam a Santíssima Trindade. Esse algo... é Fátima, é a Mãe de Deus a apelar à comunhão com o seu Filho.



Orlando de Carvalho

sábado, 2 de maio de 2026

Alexandrina (Maria da Costa) de Balasar


 







Alexandrina de Balasar Alexandrina Maria da Costa é uma mulher do povo que nasceu e viveu em Balasar e a sua vida está envolta num misticismo muito difícil de entender, onde a realidade perceptível a qualquer pessoa se enlaça num mundo de visões e de intimidade com os céus, onde a caridade e a fé próprias de quem caminha neste mundo coexistem com a alegria e a certeza de quem parece viver já a plenitude do Mistério de Deus. Não o viveu neste mundo certamente, ela própria o afirma, todavia a sua determinação, coragem e doação fazem-nos hesitar e interrogarmo-nos, afinal como foi possível alguém passar por esta vida na Terra, desta maneira? De si mesma, diz Alexandrina: “Eu chamo-me Alexandrina Maria da Costa, nasci na freguesia de Balasar, concelho da Póvoa de Varzim, distrito do Porto, a 30 de Março de 1904, numa quarta-feira de trevas e fui baptizada, a 2 de Abril do mesmo ano, era então sábado de Aleluia”. Era a segunda das duas filhas de Ana Maria da Costa– a sua irmã chamava-se Deolinda da Costa. O pai, António Gonçalves Xavier, abandonara a mãe. Os traços da gente minhota, fé e trabalho, adquirem em Alexandrina uma expressão muito forte, de tal maneira que a fazem sobressair entre os seus conterrâneos, primeiro, e a vão distinguindo ao longo da vida como uma pessoa impar na Igreja. Como criança mostrava-se obediente, trabalhadora, sempre disposta para aventuras, sendo frequentemente apelidada de Maria Rapaz. Agia com espontaneidade enquanto revelava um coração bondoso e atento ao sofri mento alheio e agindo sempre de acordo com os ensina mentos cristãos recebidos em casa, desde tenra idade. Em Balasar não havia escola e Alexandrina, com sete anos, vai com a irmã Deolinda para a Póvoa de Varzim, para frequentarem a escola primária. Nesse mesmo ano, em 1911, faz a Primeira Comunhão lá, na Póvoa do Varzim. Diz que nesse momento “fitei a sagrada Hóstia, que ia receber, parecendo-me unir a Jesus, para nunca mais me separar dEle”. Começou então a comungar diariamente. Alexandrina frequentou a escola de Janeiro de 1911 a Julho de 1912, ficando apenas com a primeira classe. Na paróquia é convidada para participar no coro e para dar catequese. Falando de si com a idade de nove anos, Alexandrina deixa--nos esta bela dissertação: “Pelos nove anos, quando me encontrava sozinha, punha-me a contemplar a natureza, o romper da aurora, o nascer do sol, o gorjeio das avezinhas, o murmúrio das águas: entrava em mim uma contemplação pro funda, que quase me esquecia que vivia no mundo. Chegava a deter os meus passos e a ficar embebida neste pensamento: o poder de Deus! E quando me encontrava à beira mar,... Oh, como me perdia, diante daquela grandeza infinita! À noite, ao contemplar o céu e as estrelas, parecia esconder-me mais ainda, para admirar as belezas do Criador!” Numa época em que as mulheres recebiam de salário meta de do que era pago aos homens, e as crianças ainda menos que metade, Alexandrina trabalha com tanto empenho e eficácia que recebe tanto como a mãe. Como adolescente a caminho de ser mulher, começam a distinguir-se-lhe contornos de grande beleza, uns olhos de contagiante vivacidade que manterão essa característica ao longo de toda a vida. Será algumas vezes incomodada, devi do a esses traços de elegância, por gente mal intencionada, homens que procuram aproveitar-se, julgando-a ingénua ou fácil de dobrar e que acabarão por marcar toda a sua vida de sofrimento. Aos doze anos é atingida pela febre tifóide. Recebe o sacramento, então chamado de extrema-unção, mas consegue salvar-se. Aos catorze anos, “andava a apanhar hera numa carvalheira para dar ao gado” e deu uma grande queda. Fica sem se “poder mexer e sem respirar”, mas logo continua a trabalho. O impacto que a coluna vertebral sofreu quando Alexandrina chocou com o solo, provoca-lhe danos que serão irreversíveis e que, embora na altura tenha parecido não ser nada de importância, se agravam com o passar do tempo. A jovem não consegue manter uma postura direita, nem a andar, nem sentada, depois tem de abandonar o trabalho, até começar a deixar de conseguir comer. Na família e nos amigos, Alexandrina não encontra apoio e consolo, mas chacota. Acusam-na de estar a fingir as dores, ridicularizam as posições que ela adopta para minimizar as dores e o pároco ameaça-a com o inferno se ela não comer normalmente! Finalmente vai a um médico que explica que ela “não comia, porque não podia”. As dores continuarão a aumentar mas, pelo menos, as pessoas vão parar de se meter com ela, acusando-a de estar a fantasiar uma doença inexistente. Alexandrina passa então por uma das maiores aflições da sua vida. Oiçamos as suas próprias palavras: “Uma ocasião estando eu, minha irmã e uma pequena mais velha do que nós a trabalhar na costura, avistámos três homens: o que tinha sido meu patrão [e que já a tentara molestar, noutra ocasião], outro casado e um terceiro solteiro. Minha irmã, percebendo alguma coisa e vendo-os seguir o nosso caminho, mandou-nos fechar a porta da sala. Instantes depois, sentimos que eles subiam as escadas que davam para a sala e bateram à porta. Falou-lhes minha irmã. O que tinha sido meu patrão mandou abrir a porta, mas como não tivessem lá obra, não lhes abrimos a porta. Ele conhecia bem a casa e subiu por umas escadas pelo interior da habitação e os outros ficaram à porta onde tinham batido. Ele, não podendo entrar pelo interior por um alçapão que estava fechado e resguardado por uma máquina de costura, pegou num maço e deu fortes pancadas nas tábuas, até rebentar o alçapão, tentando passar por aí. Minha irmã, ao ver isto, abriu a porta da sala e conseguiu escapar-se, apesar de a prenderem pela roupa. A outra pequena foi a segunda a fugir, mas essa ficou presa e eu, ao ver tudo isto, saltei pela janela que estava aberta e que deitava para o quintal. Sofri um grande abalo, porque a janela distava do chão quatro metros. Quis levantar-me logo, mas não pude, porque me deu uma forte dor... Cheia de coragem, peguei num pau e entrei pela porta do quintal para o eirado, onde estava a minha irmã a discutir com um dos dois casa dos. A outra pequena estava na sala com o solteiro. Eu aproximei-me deles zangada e disse que, ou deixavam vir a peque na ou então gritava contra eles. Aceitaram a proposta. Não lhes demos mais confiança; eles retiraram-se e nós continuámos a trabalhar”. O mal de Alexandrina provocado pela queda da árvore fica irremediavelmente comprometido e agravado. As aflições continuarão, porém, a atormentá-la. “Com os meus dezoito anos, vi-me num perigo muito grande inesperadamente. Lembra-me que levava o meu tercinho na mão e que apertei uma medalha de Nossa Senhora das Graças e, de repente, livrei-me do perigo. Foi sem dúvida a Mãezinha do Céu que me vigiou e valeu”. 




Em 1922 passa cinco meses na cama do hospital no Porto, sendo observada pelo médico Abel Pacheco. Em 1924 volta ao Porto onde é observada pelo médico João de Almeida que confirma a sua paralisia gradual. Alexandrina vai andando em médicos mas sem encontrar cura, estes chegam à conclusão que a sua doença se agrava rá gradualmente até ficar paralisada. Foi o que aconteceu. No dia 14 de Abril de 1925, Alexandrina ficou definitiva mente entrevada na cama. Com muita fé, pede a Deus a sua cura, roga a Nossa Senhora, dispondo-se a partir como missionária, se ficasse curada. Pede a cura e vive numa esperança profunda de que o amor de Deus se revelará dessa forma. Vive nesta esperança durante cinco anos. Começa neste ano a celebração anual dos meses de Maria, em Maio, e ela sente um grande desgosto por não ter nenhuma imagem da Mãezinha. É desta forma que Alexandrina trata Maria, a Mãe de Deus, que é também a nossa mãe. Forma idêntica à que Jesus ensinou para usar em relação ao Pai, Abba, Paizinho. Em 1928 prepara-se para ir a Fátima, integrada numa peregrinação que vai da sua terra. Mas o médico e o pá roco impedem-na, argumentando que se ela está a sofrer tanto que nem permite que lhe toquem, na cama, que um simples toque, às vezes lhe causa dores horríveis, como conseguirá levantar-se e empreender tão longa jornada? Alexandrina concorda. 




O pároco traz-lhe de Fátima um terço, uma medalha, um Manual do Peregrino e água – a água da fonte que tantas pessoas apontam como milagrosa. O milagre não se dá como Alexandrina o imaginara. Ela não fica curada da coluna, nem das dores, nem da paralisia. Alexandrina é protagonista de um milagre diferente. Ela vai aceitar o sofrimento, a condição de pessoa imobilizada, com coragem e paciência, e, pedra viva da Igreja de Cristo, num extraordinário hino de louvor a Jesus e de aceitação da vontade de Deus. Ela vai acolher com alegria e generosidade a doença e o sofrimento, oferecendo-se, como vítima imolada pela humanidade. Na missa, os cristãos unem-se ao sofrimento de Jesus, a vítima inocente, no louvor ao Pai. Alexandrina procurará transformar a sua vida num constante acto de louvor ao Pai e intercessão por todos os homens, pedindo ao Pai que aceite o seu sofrimento e que o associe ao sofrimento aceite e oferecido por Jesus. É este oferecimento pessoal de Alexandrina, em união com o oferecimento pessoal de Jesus, o Cordeiro oferecido em holocausto na Cruz e presente na Eucaristia, que originou o nome de “Vítima da Eucaristia”, pelo qual Alexandrina ficou conhecida. Em 1931, interroga: “Meu Jesus, que quereis que eu faça?”. A resposta que ouve, repetir-se-á ao longo dos anos: “Amar, reparar, sofrer”. A partir de 1933, o padre jesuíta Mariano Pinho será o director espiritual de Alexandrina, até partir, exilado para o Brasil. É ele que toma a iniciativa de lhe pedir que faça um diário, através do qual hoje temos conhecimento da rica vivência espiritual desta mulher. No dia 3 de Julho é substituído o pároco de Balasar. O novo pároco, padre Leopoldino, entende alterar o sistema de comunhão de Alexandrina. Em vez da comunhão diária, levar-lhe-á a comunhão apenas uma vez por mês. Naquele tempo não havia ainda na Igreja o serviço dos Ministros Extraordinários da Comunhão para visitar e levar a comunhão aos doentes acamados. Alexandrina, triste com esta situação, continuará a comungar, embora espiritualmente. A 20 de Novembro é celebrada pela primeira vez a Missa no quarto de Alexandrina. A 6 de Setembro de 1934, Alexandrina aceita o convite de Jesus para viver com Ele a sua Paixão: “Dá-me as tuas mãos, que as quero crucificar; dá-me os teus pés, que os quero cravar comigo; dá-me a tua cabeça, que a quero coroar de espinhos como Me fizeram a Mim; dá-me o teu coração, que o quero trespassar com uma lança, como Me trespassaram a Mim; consagra-Me todo o teu corpo, oferece-te toda a Mim, que te quero possuir por completo e fazer o que Me aprouver”. A 11 de Outubro, Jesus, numa das muitas visões de Alexandrina, dirige-lhe um convite: “Ajuda-me na redenção do género humano”. A 20 de Dezembro, Alexandrina compromete-se, perante Jesus, a zelar por todos os sacrários do mundo onde Jesus está sozinho, sem ninguém que lhe faça companhia, e a zelar por todos os pecadores. Alexandrina fará longas vigílias de companhia a Jesus, sozinho nos sacrários, ao mesmo tempo que entrega as suas imensas dores pelos pecadores. Contará que Jesus lhe chamou “mãe dos pecadores”, por este compromisso que ela assume voluntariosamente. Um poema composto por Alexandrina (ou uma oração dirigida por Alexandrina a Jesus Cristo):




Ó meu Jesus, meu Amado, 
No altar sacramentado, 
Por meu amor encerrado 
Nesse sacrário de amor. 

Quisera estar contigo, ó Jesus, 
Dia e noite e a toda a hora, 
Porém, agora não posso ir, 
Bem o sabeis, ó meu bom Pai! 

Estou presinha de pés e mãos; 
Mais presa quisera estar, 
Juntinha a Vós no sacrário, 
Não me ausentar um só momento. 

Ó Sacramento tão adorado 
Do meu Jesus, do meu Amado, 
Eu Vos saúdo aqui do leito, 
Vinde morar neste meu peito! 

Fazei, Senhor, 
Dele um sacrário 
Para eu poder, 
Ó bom Jesus, 
Ser Vossa esposa. 

Ó meu Amado, 
Realizai os meus desejos 
Que são, Senhor, 
Possuir-Vos em mim 
Sacramentado. 

Em 30 de Julho de 1935 Jesus pede a Alexandrina que o Papa faça a consagração do Mundo ao Coração Imaculado de Maria, sua Mãe. Manda Alexandrina transmitir ao seu director espiritual que escreva ao Papa Pio XI nesse senti do. O padre Mariano Pinho escreverá nesse sentido ao cardeal Pacelli, Secretário de Estado do Vaticano. Na Primavera de 1937 Alexandrina está muito doente, pensam que ela está a morrer. Ela própria conta o que aconteceu: “Vi entrar no quarto o senhor Abade e, conhecendo-o, disse-lhe: “Eu quero receber Nosso Senhor”. Ele respondeu-me: “Sim, minha menina, vou buscar-te uma hóstia por consagrar e, se a não vomitares, trago-te Nosso Senhor.” Assim o fez. Logo que engoli a hóstia por consagrar, imediatamente a vomitei. Sua Reverência estava para desistir em me trazer Nosso Senhor, e alguém disse: “Sr. Abade, uma hóstia por consagrar não é Jesus”. Foi então que se resolveu a ir buscar uma consagrada. Recebi-a e não vomitei. 




Nunca mais deixei de receber Jesus Sacramentado por causa desses vómitos. Quantas vezes entrava o senhor Abade no meu quarto para me dar Nosso Senhor, e eu a vomitar! Logo que recebia Jesus, cessavam os vómitos, nunca vomitando antes de passar meia hora. Como era assim, o Senhor Abade nunca temeu em me dar a comunhão. A crise durou bastante tempo, mas, durante dezassete dias, estive sem tomar nada, absolutamente nada. A minha medicina foi Jesus”. Em resposta ao pedido enviado ao Papa, a Santa Sé questiona o arcebispo de Braga, que envia um emissário, o padre jesuíta António Durão, para conversar e interrogar Alexandrina a fim de esclarecer o significado do pedido. Durante o Verão deste ano o demónio ataca com maior violência Alexandrina, chegando a atirá-la para baixo da cama. São ocasiões de grande sofrimento para ela e de difícil com preensão para aqueles que são testemunhas oculares desse sofrer. O padre Mariano Pinho escreve aos bispos portugueses, pedindo-lhes que intercedam junto do Papa para que ele faça a consagração do mundo ao Coração Imaculado de Maria. A Santa Sé de novo questiona o arcebispo de Braga que envia o cónego Manuel Vilar, para interrogar Alexandrina sobre o seu pedido. Uma senhora de Lisboa, Fernanda dos Santos, posta ao corrente da situação de Alexandrina e das suas absolutas necessidades financeiras, dispõe-se a auxiliá-la daí para diante. Entre 3 de Outubro de 1938 e 20 de Março de 1942, Alexandrina viverá todas as sextas-feiras, durante cerca de três horas e meia, a Paixão de Cristo, percorrendo, e sentindo as dores inerentes ao percurso da Via Sacra. Inexplicavelmente, nestes períodos, Alexandrina readquiria a mobilidade e rezava de joelhos, repetindo os movimentos próprios de cada estação da Via Sacra. Ao longo destes anos, diversos médicos e sacerdotes, entre outras pessoas, foram testemunhas destes acontecimentos que se sucederam interruptamente por cento e oitenta e duas semanas. Continuará, todavia, a viver a Paixão de Cristo até final da sua vida, embora, após este período, tal aconteça de forma mais íntima. Em 1938 o padre Humberto Maria Pascoale, que é um salesiano italiano, vem ter com Alexandrina para a auxiliar, pois ouvira falar dela com muita falta de respeito. Será seu director espiritual, acompanhando-a até ao fim da sua vida e entusiasmando-a a continuar a fazer o diário, entretanto interrompido desde a partida do padre Mariano Pinho. Em Dezembro, Alexandrina vai pela terceira vez ao Porto para ser observada por médicos. Desta vez, um psiquiatra é também incluído na lista dos médicos. Em 1939, por três vezes, Jesus prediz a Alexandrina o iní cio da II Guerra Mundial, antes de ela se iniciar, a 1 de Setembro. Alexandrina oferece-se como vítima pela paz. Em Março o cardeal Pacelli é eleito Papa e Jesus diz a Alexandrina que é este o Papa que fará a desejada consagração do mundo ao Imaculado Coração de Maria. Em Junho, na festa do Sagrado Coração de Jesus, Alexandrina escreve, ela mesma, ao Papa a pedir-lhe a consagração do mundo. No Verão de 1940, Alexandrina oferece-se como vítima pela paz no mundo, e em especial em Portugal. Ouve Jesus garantir-lhe que Portugal será poupado à guerra. Em Setembro, Alexandrina escreve também ao cardeal Cerejeira e a Salazar. Alguns bispos apresentam o caso à Irmã Lúcia, pedindo-lhe que interceda, também ela, junto do Santo Padre. A vidente de Fátima fica confusa, pois Nossa Senhora pedira-lhe, em Fátima, apenas a consagra ção da Rússia ao seu Imaculado Coração e não de todo o mundo. Lúcia reza e pede a Jesus que a ilumine. E obtém dEle a confirmação do pedido feito a Alexandrina, em Balasar. Em Junho de 1941 Alexandrina faz a sua quarta viagem ao Porto, para ser novamente observada por médicos. Em Agosto, o Padre José Alves, que presenciara o êxtase de Alexandrina durante a vivência da Paixão de Cristo, numa sexta-feira, publica o facto na imprensa. Este facto vai fazer as pessoas acorrerem à casa de Alexandrina. Tendo vivido pela última vez o êxtase da Paixão, de modo visível, a 20 de Março de 1942, a 27 de Março ela está muito mal e recebe os últimos sacramentos. A partir de 3 de Abril, sexta-feira santa, Alexandrina não voltará a ali mentar-se, nem de alimentos sólidos, nem sequer de água. A comunhão diária será o seu único alimento durante treze anos. No dia 31 de Outubro de 1942, o Papa Pio XII faz final mente a consagração do mundo ao Coração Imaculado de Maria, através de uma mensagem transmitida a partir de Fátima, em língua portuguesa. No dia 8 de Dezembro, o Sumo Pontífice repete a consagração solenemente na Basílica de São Pedro, no Vaticano. Tanto entre os sacerdotes, como entre os leigos, as opiniões acerca de Alexandrina estavam muito divididas. Muitos acusavam Alexandrina de estar a montar um espectáculo, em colaboração com a mãe e a irmã, tanto a respeito dos êxtases da Paixão, mas principalmente quando se começa a divulgar o facto de ela estar há tanto tempo sem comer, nem beber, conseguindo sobreviver. Alexandrina aceita submeter-se a um controlo médico ao seu estado de jejum e anúria (não urinar) absolutos. Entre 10 de Junho e 20 de Julho, Alexandrina fica internada no Refúgio de Paralisia Infantil, no Porto, vigiada vinte e quatro horas por dia. Ao fim dos trinta dias acordados, em que Alexandrina, além de vigiada, foi sistematicamente tentada com alimentos, a pedido de um médico mais desconfiado, o período prolongou-se por mais dez dias, até 20 de Julho. Foi passa do um certificado, assinado por vários médicos de idoneidade inquestionável, em como durante quarenta dias Alexandrina não tinha comido, nem bebido nada, para além da comunhão diária, nem urinado, nem excretado fezes, tendo conservado o peso, a temperatura, a respiração, a tensão, o pulso, o sangue e as faculdades mentais, o que é impossível, do ponto de vista científico. A 25 de Junho de 1944, o arcebispo de Braga, cautelosa mente, proíbe a divulgação dos factos relacionados com Alexandrina Maria da Costa. Todavia, eles vão sendo conhecidos, e as más línguas continuam a fazer furor. Em Outubro de 1946 Alexandrina é colocada sobre tá buas duras, pois a cama macia provoca-lhe muitas dores. Sofrerá sobre estas tábuas até à sua morte. Durante o ano de 1952, face a um notável aumento de pessoas a visitar Alexandrina, o arcebispo de Braga proíbe tais visitas. Continuando as visitas a processar-se e mesmo a aumentar, o arcebispo anula a proibição no final do ano, o que provoca ainda mais visitas. Em 1953, as visitas são num número verdadeiramente despropositado. A 19 de Março, recebe mais de 500 pessoas. A 9 de Maio são quase dois mil os visitantes. A 5 de Junho são cinco mil e a 10 de Junho são seis mil os visitantes. No meio de todo o seu sofrimento, Alexandrina recebe estes visitantes de cara alegre e bem disposta, e fala-lhes, fala--lhes durante bastante tempo. As pessoas vão para a ouvir e as palavras de Alexandrina produzem eco nos corações daqueles que a ela acorrem. Muitos mudam de vida, operando-se neles uma conversão interior. Muitos dos seus êxtases, ao longo deste ano, são presenciados por estes visitantes e alguns são gravados. O último êxtase em público ocorre a 25 de Dezembro. No início de 1955 Jesus diz a Alexandrina que este é o ano da sua morte. Ela parte, para se juntar ao seu noivo celeste, a 13 de Outubro de 1955. Os restos mortais de Alexandrina, depositados no cemitério local, foram trasladados em 1973, para a Igreja Paroquial de Balasar. Alexandrina iniciava sempre o seu dia com esta oração: 

“Sagrado Coração de Jesus, este dia é para Vós”. 

Depois de várias orações, dizia à Mãezinha (Nossa Senhora): 

“Avé Maria, cheia de graça! Eu vos saúdo, ó cheia de graça! Ó Mãezinha, eu quero ser santa! Ó Mãezinha, abençoai-me e pedi a Jesus que me abençoe!”