Ao fim de 26 anos como pároco, o padre Óscar Romero foi ordenado arcebispo de El Salvador. Tinha
59 anos de idade e uma larga experiência de auxílio às populações carentes ou em risco.
Às 18 horas e 30 minutos de 24 de Março de 1980, Dom Óscar Romero foi assassinado com um
tiro no peito, por um esquadrão de extrema direita, enquanto presidia a uma missa na capela de um
hospital,
entre doentes cancerosos e enfermeiros. Tornou-se em mais uma das 1015
pessoas assassinadas no seu país entre Janeiro e Março desse ano.
O
arcebispo apelava à paz e à contenção nas agressões violentas entre
militantes de extrema esquerda e extrema direita. Mas o que mais
preocupava Dom Óscar era a extrema miséria em que vivia o povo do seu
país. Desdenhou as ameaças de morte que ia recebendo, pois sabia que a
sua função era anunciar o Evangelho de Jesus Cristo enquanto devia
realizar a opção preferencial da Igreja pelos
pobres, definida pela mesma Igreja.
João Paulo II visitou o seu túmulo, detendo-se lá.
In Os Santos de João Paulo II, livro II, Orlando de Carvalho, Lusodidacta, página 212.
Publicação com a colaboração do missionário comboniano Fernando Jorge Félix Ferreira
Missionários
e agentes pastorais mortos em 2024
“Podemos
perguntar-nos: Como conseguiram sobreviver a tantas tribulações? E eles
dir-nos-ão o que ouvimos nesta passagem da Segunda Carta aos Coríntios: “Deus é
Pai misericordioso e Deus de toda a consolação.” Ele consolou-nos.
Escolhemos
as palavras que o Papa Francisco pronunciou na Catedral de Tirana durante a sua
Viagem Apostólica à Albânia em 2014, para introduzir o habitual relatório anual
da Fides sobre os missionários e agentes pastorais mortos em todo o mundo em
2024.
Como
de costume, a lista anual da Fides não se limita exclusivamente aos
missionários ad gentes em sentido estrito, mas considera as definições
de “missionário” e “missionária” alargando o horizonte para incluir todos os
católicos envolvidos em obras pastorais e actividades eclesiásticas que
encontraram a morte de forma violenta, mesmo que nem sempre tenha sido “por
ódio à fé”.
Por
esta razão, evitamos utilizar o termo “mártires”, excepto no seu sentido
etimológico de “testemunhas”, para não interferir com os julgamentos que a
Igreja possa fazer nos processos de canonização.
Números:
Em
2024, segundo dados verificados pela Agência Fides, foram assassinados 13
“missionários” católicos em todo o mundo, entre os quais oito sacerdotes e cinco
leigos. Mais uma vez, a África e a América lideram este trágico recorde, com
cinco vítimas em cada continente. Nos últimos anos, as duas regiões têm-se
alternado no topo desta dolorosa estatística.
Especificamente,
6 homens foram assassinados em África (2 no Burkina Faso, 1 nos Camarões, 1 na
República Democrática do Congo e 2 na África do Sul), 5 na América (1 na
Colômbia, 1 no Equador, 1 no México e 1 no Brasil) e 2 na Europa (1 na Polónia
e 1 em Espanha).
Como
demonstram os dados verificados e comprovados sobre as suas biografias e as
circunstâncias das suas mortes, os missionários e agentes pastorais
assassinados não foram visados por causa de obras ou compromissos notórios, mas
porque trabalhavam para dar testemunho da sua fé na vida quotidiana.
As
breves notícias e testemunhos recolhidos sobre a vida e as circunstâncias que
rodearam a morte violenta destas pessoas oferecem-nos um retracto da sua vida
quotidiana, em contextos particularmente difíceis, marcados pela violência,
miséria e injustiça. São testemunhas e missionários que ofereceram a sua vida a
Cristo até ao fim, livremente e por gratidão.
Entre
os agentes pastorais mortos em 2024 estão Edmond Bahati Monja, coordenador da
Rádio Maria/Goma, e Juan Antonio Lopez, coordenador da pastoral social da
diocese de Truijllo e membro fundador da pastoral ecológica integral das
Honduras.
Edmond,
que vivia numa zona do Kivu Norte abalada pelo avanço do grupo armado M23, foi
morto a tiro por homens armados perto da sua casa, no distrito de Ndosho, nos
arredores de Goma. O exército regular congolês, para reforçar as defesas da
cidade, estabeleceu alianças ad hoc com outros grupos armados e forneceu
armas a várias milícias conhecidas como Wazalendo (“Patriotas” em swahili). No
entanto, a presença destes grupos armados irregulares fez aumentar a
criminalidade violenta em Goma, onde os roubos e os assassínios estão na ordem
do dia. O assassinato de Edmond Bahati, que se dedicava ao jornalismo de
investigação sobre questões locais, parece estar ligado à paixão e ao
empenhamento com que realizava o seu trabalho. Nos últimos dois anos, pelo
menos uma dúzia de jornalistas foram mortos em Goma e arredores. Bahati tinha
dedicado parte das suas investigações a documentar a violência dos grupos
armados na região.
Juan
Antonio López era conhecido pelo seu empenhamento na justiça social. A sua fé
cristã dava-lhe força e coragem. O crime ocorreu poucas horas depois de López e
outros líderes comunitários terem denunciado, numa conferência de imprensa,
alegadas ligações entre membros da administração municipal de Tocoa e o crime
organizado. O assassinato de López ocorre num contexto de crescente repressão
contra os defensores dos direitos humanos nas Honduras. O Papa Francisco,
durante a oração do Angelus de 22 de Setembro, sublinhou a importância
de proteger aqueles que defendem a justiça. “Estou próximo daqueles cujos
direitos fundamentais são espezinhados e daqueles que trabalham para o bem
comum, respondendo ao grito dos pobres e da terra”, acrescentou o Papa, recordando
o legado de López como um homem de fé que deu a vida pelos outros.
Entre
os anos 2000 e 2024, o número total de missionários e agentes pastorais mortos
ascende a 608. “Estes irmãos e irmãs podem parecer falhados, mas hoje vemos que
não é assim. De facto, hoje como então, a semente dos seus sacrifícios, que
parecia morrer, germina, dá fruto, porque Deus, através deles, continua a fazer
maravilhas, mudando os corações e salvando os homens” (Papa Francisco, 26 de Dezembro
de 2023, festa litúrgica do Protomártir Santo Estêvão).
Fabio
Beretta, Agência Fides
33º dia dedicado aos Missionários Mártires
“Mártires, testemunhas da esperança que não
desilude”
Vivemos
este Dia de Oração e Jejum em memória dos Missionários Mártires no contexto do
Jubileu que o Papa Francisco quis dedicar ao tema da esperança: “Peregrinos da
Esperança”.
Há
uma relação vital entre o tema do “martírio” e o tema da “esperança”: podemos
dizer, sem sombra de dúvida, que não é possível pensar o martírio sem que ele é
sustentado pela força vital da Esperança.
Já
no relato dos Actos dos Apóstolos que descreve as atitudes do primeiro mártir,
Santo Estêvão (Act 7,55-60), percebemos a serenidade com que o diácono Estêvão
enfrenta o martírio: ele não aparece simplesmente como vítima da perseguição. A
sua serenidade é fruto de uma esperança inabalável em algo maior, numa vida que
vai para além da morte, porque a morte não tem a vitória final (1 Cor
15,54-55).
O
olhar de Estêvão para o céu, quando é atingido pelas pedras, é a manifestação
concreta dessa esperança em Cristo, o vencedor; uma esperança tão grande que
lhe permite imitar o Mestre também na oração confiante e no perdão dos seus
perseguidores.
O
próprio Jesus tinha preparado os seus discípulos para a perseguição, não lhes
escondendo o cansaço da missão. Já nas instruções do primeiro mandato
missionário (Mt 10) Ele disse-lhes: “Eis que vos envio como ovelhas para o meio
de lobos... Cuidado com os homens, porque eles vos entregarão aos tribunais e
vos açoitarão nas suas sinagogas; e sereis levados à presença dos governadores
e dos reis por minha causa, para lhes dar testemunho a eles e aos pagãos”. (vv.
16-18); e, mais claramente ainda, diz: “E não tenhais medo daqueles que matam o
corpo, mas não podem matar a alma” (v. 28).
A
perseguição é tão inevitável que Jesus até a incluiu nas bem-aventuranças:
“Bem-aventurados sereis quando vos insultarem, vos perseguirem e, mentindo,
disserem todo o mal contra vós por minha causa” (Mt 5,11). E imediatamente
Jesus acrescenta que essa bem-aventurança só é possível se for apoiada pela
esperança, expressa no versículo seguinte: “Alegrai-vos e exultai, porque é
grande a vossa recompensa nos céus”. (v. 12).
A
coragem, a capacidade e a força para enfrentar a perseguição - e a sua
consequência extrema que consiste no martírio - são virtudes que fazem parte da
identidade e da vida quotidiana dos discípulos do Senhor e devem ser assumidas
conscientemente, não só porque a perseguição parece inevitável, mas também
porque representam o caminho para tornar efetivo o testemunho da própria fé.
Manter
viva a Esperança é, pois, o princípio vital que sustenta a missão dos
discípulos mesmo nos momentos mais sombrios e nas situações de maior
adversidade, temperando o seu carácter e tornando eficaz o seu testemunho.
S.
Paulo, na sua carta aos Romanos, sublinha que o sofrimento produz a
perseverança, a perseverança um carácter aprovado, e o carácter aprovado conduz
à esperança: “Nós vangloriamo-nos mesmo na tribulação, sabendo que a tribulação
produz a paciência, a paciência uma virtude provada, e a virtude provada a
esperança. Assim, a esperança não desilude, porque o amor de Deus foi derramado
nos nossos corações pelo Espírito Santo. “Ide e convidai” é o tema deste 33º DIA DE
ORAÇÃO E DE JEJUM EM MEMÓRIA DOS MISSIONÁRIOS MÁRTIRES 2025. (Rm 5,3-5). Este
ciclo evidencia como o martírio pode ser visto não só como um fim, mas como um
meio através do qual a esperança se reforça e se manifesta.
O
mártir, movido pela esperança, não se limita a sofrer a morte, mas transforma-a
num testemunho poderoso, capaz de inspirar coragem, resiliência e fé.
O
martírio, portanto, não é apenas um sacrifício pessoal, mas um testemunho para
os outros crentes. O mártir torna-se um símbolo de esperança para toda a
comunidade. Pensemos no exemplo da figura de S. Óscar Romero: pensavam que
estavam a calar uma voz incómoda e, em vez disso, ele tornou-se um símbolo
duradouro da luta por ideais maiores de e de solidariedade para com os mais
pobres, inspirando assim muitas outras pessoas, grupos e movimentos no seu
empenhamento pela justiça e pela liberdade. Num certo sentido, podemos dizer
que o martírio, vivido e sustentado pela esperança, torna-se ele próprio um
gerador de esperança.
Deixemo-nos
iluminar pelos mártires de ontem e de hoje: eles abrem-nos à esperança viva na
promessa do Senhor expressa em Apocalipse 2,10: “Sê fiel até à morte e
dar-te-ei a coroa da vida”.
Reflexão temática do P. Giuseppe Pizzoli
Director Geral da Fundação Missio
24 de Março – D. Óscar Romero - Dia dos
Missionários Mártires
Hoje,
24 de Março, dia em que celebramos a Memória Litúrgica de S. Óscar Romero, o
arcebispo mártir de S. Salvador, a Igreja recorda os seus missionários
mártires. Recordamos todos os que são perseguidos e mortos por causa da sua fé
em Jesus e da opção por viver o Evangelho. Nem todos os mártires são mortos por
causa do “ódio à fé”. A maior parte são mortos por causa do seu compromisso com
a fé, que os leva a trabalharem e a lutarem pela justiça e pela paz, a exemplo
do que fez S. Óscar Romero, no seu país, El Salvador. Os mártires recordam-nos
do flagelo da perseguição em muitas regiões do mundo e da falta de liberdade
religiosa. Deus nunca abandona quem lhe é fiel e, ao celebrarmos estes mártires,
podemos contar com a sua intercessão por quem vive situações delicadas e vê atropelados
os seus direitos humanos e religiosos.
P. José Rebelo
Director Nacional das Obras Missionárias Pontifícias
APELO DE CONVERSÃO À OLIGARQUIA
Agora, que estamos em tempo
de Quaresma, que é tempo de conversão,
quando se toma consciência do que é ser cristão, quero fazer um apelo fraternal
e pastoral à oligarquia para que se converta, viva e faça valer o seu poderio
económico para a felicidade do povo e não para a desgraça e ruína da nossa
população. Se não me quiserem ouvir, ouçam pelo menos a voz do Papa João Paulo
ll, que precisamente esta semana, ao começar a Quaresma, exortou os católicos do
mundo a privarem-se das riquezas supérfluas para a ajuda aos necessitados, como
sinal de penitência quaresmal. A propósito, gostaria de recordar o que o Papa
Paulo Vl dizia sobre os dois modos de celebrar a Quaresma:
- nos países economicamente
desenvolvidos
- e nos países pobres como
o nosso, onde a Quaresma é perene porque se está sempre a jejuar.
Naqueles países, deve consistir
em fazer prevalecer os valores da austeridade, privando-se de algo;
em países como o nosso,
aqueles que sofrem permanentemente a fome e a privação devem dar um sentido
penitencial à sua situação e não se conformarem com ela, mas sim trabalharem
para que a justiça social impere no país.
Esta será a nossa melhor Quaresma: trabalhar pela justiça
social e pelo amor aos pobres, como me recomendou o Papa João Paulo ll na minha
visita a
Roma. O próprio Pontífice assinalou que esses bens, que não
são necessários para uns, constituem um requisito essencial para a
sobrevivência de centenas de milhões de seres humanos.
Destacando um ponto essencial da mensagem cristã, o Papa
também disse que não importa à Igreja apenas que haja uma distribuição mais equitativa
das riquezas: interessa-lhe que essa distribuição se dê porque existe realmente
em todos os homens uma atitude de compartilhar não só os bens, mas até mesmo a
vida, com aqueles que não gozam dos benefícios da sociedade. Isso é lindo! A
justiça social não é tanto uma lei que ordene a distribuição; vista sob a
óptica cristã, é uma atitude interna como a de Cristo, que, sendo rico, Se fez
pobre para poder compartilhar com os pobres o Seu amor. Espero que este apelo
da Igreja não endureça ainda mais o coração dos oligarcas, mas sim os
impulsione à conversão. Compartilhem o que são e têm.
Não continuem a calar com a violência quem lhes faz este
apelo e muito menos continuem a matar aqueles que procuram fazer com que haja
uma distribuição mais justa do poder e das riquezas no nosso país.
E digo isso na primeira pessoa, porque esta semana chegou-me
um aviso de que estou na lista dos que serão eliminados na próxima semana. Mas
que
fique registado que a voz da justiça já não pode mais ser
morta por ninguém!
D. Óscar Romero (24-2-1980)
30 Dias após estas palavras, a 24 de março de 1980 (vai fazer 45 anos), ao fim da
tarde, D. Óscar Arnulfo Romero y Galdámez, arcebispo de São
Salvador, foi assassinado com um disparo à queima-roupa no coração,
quando celebrava missa na capela do Hospital da Divina Providência, na colónia
Miramonte, em São Salvador.
Proposta para Encontro de Catequese sob o tema
As Bem-aventuranças completam os Dez Mandamentos
A mensagem está aqui, com exemplos de vários mártires:
https://diesdomini8.blogspot.com/2018/03/as-bem-aventurancas-completam-os-dez.html
Oração:
Pai do céu, que concedestes aos
Missionários Mártires a graça de sofrerem em nome de Cristo, vinde em
nosso auxílio, para que, a exemplo dos que morreram corajosamente por
Vós, saibamos dar firme testemunho da fé com a nossa vida. Por Nosso
Senhor Cristo, Vosso Filho, que é Deus e que contigo vive e reina na
unidade do Espírito Santo, por todos séculos dos séculos.
R. Amém