Maria Faustina
Era o dia 2 de Abril de 2005, cerca das 22h, em Roma.
O arcebispo Leonardo Sandri, anunciou à multidão de fiéis reunidos na Praça de São Pedro e aos milhões de católicos que em todo o mundo prestavam toda a atenção à televisão ou à rádio:
“Às 21h 37m, o nosso querido Santo Padre João Paulo II regressou à Casa do Pai”
Duas horas passadas, o Serviço de Informação do Vaticano difundia a seguinte nota:
«Esta noite, o Senhor Joaquim Navarro-Valls, Director da Sala de Imprensa da Santa Sé, divulgou a seguinte declaração:
“O Santo Padre faleceu às 21h 37m nos seus apartamentos privados do Vaticano.
Todos os procedimentos previstos pela Constituição Apostólica Universi Dominici Gregis, promulgada por João Paulo II, a 22 de Fevereiro de 1996, foram desencadeados.
Às 20 h tinha começado a Missa da festa da Divina Misericórdia no quarto do Papa, presidida por Monsenhor Stanislaw Dziwisz, assistido pelo Cardeal Marian Jarowski, por Monsenhor Stanislaw Rylko e por Monsenhor Mieczyslaw Mokrzycki.
Durante a Missa, o Papa recebeu o Viático e a Santa Unção
dos Doentes, pela segunda vez”.»
A forma como viveu a sua morte – parece um paradoxo falarmos de viver a morte – foi provavelmente a última Catequese que João Paulo II fez aos homens. Esta última estação da peregrinação na Terra é uma das mais importantes, quiçá a mais importante. De facto, a coisa mais importante que qualquer pessoa pode ambicionar é a vida e a morte é a porta para a vida verdadeira, dominada pela esperança da felicidade eterna.
O Papa, como quase todos os seus Santos e Beatos, entregou-se pacificamente nas mãos misericordiosas de Deus. Não agiu assim por não ter outra opção – de facto, não temos opção para a morte – mas fez na antecâmara desta transição para a vida celeste, uma Profissão de Fé na Misericórdia Divina. E parece-me que podemos dizer também que Deus, na sua infinita misericórdia nos deixou antever que a sua misericórdia, a mesma da Parábola do Pai Misericordioso (ou do Filho Pródigo), não é apenas uma história, nem somente uma esperança, mas podemos olhá-la já como componente da essência de Deus.
A Igreja inicia a celebração litúrgica do Domingo a partir do meio-dia de Sábado. Ora, o nosso querido Papa partiu para os braços de Deus, ao fim da tarde do segundo Domingo de Páscoa. Precisamente o dia que ele denominara Domingo da Misericórdia Divina. E conforme testemunho de quem esteve perto dele nos últimos momentos, o Papa estava completamente abandonado à vontade de Deus.
Helena Kowalska nasceu em Glogowiec, na Polónia, a 25 de Agosto de 1905. Os pais, Mariana e Estanislau eram camponeses e ela foi a terceira de dez irmãos. Ainda era criança, tinha sete anos, quando sentiu pela primeira vez o apelo de Jesus para se consagrar na vida religiosa.
Aos dezasseis anos começou a trabalhar como empregada doméstica, em casa de famílias abastadas. Com a idade de vinte anos decidiu então responder aos insistentes apelos de Nosso Senhor e consagrar-se-Lhe
totalmente, fazendo-se freira. Foi admitida na Congregação das Irmãs da Bem-aventurada Virgem Maria da Misericórdia e recebeu o nome de Maria Faustina. Viveu em diversas casas da congregação onde exerceu vários serviços de cozinheira, porteira e jardineira.
No Sábado Santo de 1934 ofereceu-se a Deus como vítima pelos pecadores que ainda não conheciam a misericórdia de Deus, colaborando assim na obra de salvação das almas perdidas. Adoeceu depois com tuberculose.
A 5 de Outubro de 1938, regressou à Casa de Deus, cheia de esperança na Misericórdia Divina.
Foi o então ainda Bispo Auxiliar de Cracóvia, Cardeal Karol Wojtyla quem iniciou o processo para a canonização da Irmã Faustina, em 1965.
Em 1981, no Domingo de Cristo Rei, o Papa João Paulo II visitou o Santuário do Amor Misericordioso, em Cracóvia, afirmando:
“Há um ano publiquei a encíclica “Dives in misericórdia”.
Pela mesma razão, venho hoje ao Santuário do Amor Misericordioso. Quero, com a minha presença, reafirmar, de alguma forma, a mensagem dessa encíclica. Desejo lê-la e transmiti-la outra vez. Desde o início do meu ministério na Sé Romana, fiz desta mensagem a minha tarefa primordial. Foi um encargo da Divina Providência, perante a situação do homem, da Igreja e do mundo. Foi também esta situação que me levou a sentir-me responsável
perante Deus, pela difusão desta mensagem”.
Já então como Papa, João Paulo II elevou a Irmã Faustina aos altares, proclamando-a Beata a 18 de Abril de 1993, Segundo Domingo da Páscoa. A 30 de Abril de 2000, também Segundo Domingo da Páscoa, Sua Santidade João Paulo II procedeu à canonização da sua compatriota
Maria Faustina, na Praça de São Pedro. Durante a homilia, o Santo Padre ensinou:
“É deveras grande a minha alegria, ao propor hoje à Igreja inteira, como dom de Deus para o nosso tempo, a vida e o testemunho da Irmã Faustina Kowalska. Pela Divina Providência a vida desta humilde filha da Polónia esteve completamente ligada à história do século XX, que há pouco deixámos atrás. De facto, foi entre a primeira e a segunda guerra mundial que Cristo lhe confiou a sua mensagem de misericórdia. Aqueles que recordam, que foram testemunhas e participantes nos eventos daqueles anos e nos horríveis sofrimentos que daí derivaram para milhões de homens, bem sabem que a mensagem da misericórdia é necessária. (…)
É importante, então, que acolhamos inteiramente a mensagem que nos vem da palavra de Deus, neste segundo Domingo de Páscoa, que de agora em diante na Igreja inteira tomará o nome de Domingo da Divina Misericórdia”.
Nas diversas leituras, a liturgia parece traçar o caminho da misericórdia que, enquanto reconstrói a relação de cada um com Deus, suscita também entre os homens novas relações de solidariedade fraterna. Cristo ensinou-nos que “o homem não só recebe e experimenta a misericórdia de Deus, mas é também chamado a “ter misericórdia” para com os demais. “Bem-aventurados, os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia”
(Mt 5, 7)” (Dives in misericordia, 14). Depois, Ele indicou-nos as múltiplas vias da misericórdia, que não só perdoa os pecados, mas vai também ao encontro de todas as necessidades dos homens. Jesus inclinou-se sobre toda a miséria humana, material e espiritual.
A sua mensagem de misericórdia continua a alcançar-nos através do gesto das suas mãos estendidas rumo ao homem que sofre. Foi assim que O viu e testemunhou aos homens de todos os continentes a Irmã Faustina que, escondida no convento de Lagiewniki, em Cracóvia, fez da sua existência um cântico à misericórdia: Misericordias Domini in aeternum cantabo
A canonização da Irmã Faustina tem uma eloquência particular: mediante este acto quero hoje transmitir esta mensagem ao novo milénio. Transmito-a a todos os homens para que aprendam a conhecer sempre melhor o verdadeiro rosto de Deus e o genuíno rosto dos irmãos. (…)
Esta mensagem consoladora dirige-se sobretudo a quem, afligido por uma provação particularmente dura ou esmagado pelo peso dos pecados cometidos, perdeu toda a confiança na vida e se sente tentado a ceder ao desespero. Apresenta-se-lhe o rosto suave de Cristo, chegando-lhe aqueles raios que partem do seu Coração e
iluminam, aquecem e indicam o caminho, e infundem esperança. Quantas almas já foram consoladas pela invocação
“Jesus, confio em Ti”,
que a Providência sugeriu através da Irmã Faustina!
Este simples acto de abandono a Jesus dissipa as
nuvens mais densas e faz chegar um raio de luz à vida
de cada um. (…)
Misericordias Domini in aeternum cantabo (Sl 88, 2).
À voz de Maria Santíssima, “Mãe da misericórdia”, à voz desta nova Santa, que na Jerusalém celeste canta a misericórdia juntamente com todos os amigos de Deus, unamos também nós, Igreja peregrina, a nossa voz.
E tu, Faustina, dom de Deus ao nosso tempo, dádiva da terra da Polónia à Igreja inteira, obtém-nos a graça de perceber a profundidade da misericórdia divina,
ajuda-nos a torná-la experiência viva e a testemunhá-la
aos irmãos! A tua mensagem de luz e de esperança se
difunda no mundo inteiro, leve à conversão os pecadores,
amenize as rivalidades e os ódios, abra os homens
e as nações à prática da fraternidade. Hoje, ao fixarmos
contigo o olhar no rosto de Cristo ressuscitado, fazemos
nossa a tua súplica de confiante abandono e dizemos
com firme esperança:
Jesus Cristo, confio em Ti!
“Jezu, ufam tobie!”.
A 17 de Agosto de 2003, o Papa João Paulo II recomendou o mundo à Divina Misericórdia, durante a dedicação do Santuário de Lagiewniki, em Cracóvia, junto do convento onde viveu a irmã Maria Faustina. Em 1934 a Irmã Faustina começou a escrever um Diário, por sugestão do seu director espiritual. Lá estão registadas as experiências místicas, as revelações de Jesus, os estigmas que escondia.
A Irmã Faustina teve diversas visões de Jesus.
A 22 de Fevereiro de 1931, enquanto estava na sua cela, a Irmã Faustina teve uma visão de Jesus, vestido de branco com uma mão elevada para abençoar e outra sobre o peito, de onde emergiam, dois grades raios, um vermelho e outro
branco. Jesus disse-lhe: “Pinta uma imagem conforme o modelo que estás a ver e grava as palavras “Jesus eu confio em Ti”. Desejo que essa imagem seja venerada, primeiro na capela, e depois em todo o mundo”. A Irmã concretizou o
pedido do Senhor, pedindo a um artista que pintasse uma imagem de Jesus, de acordo com as instruções que ela lhe dava, como ela O vira, contendo a invocação “Jesus, eu confio em Vós”. Jesus revelou à Irmã Faustina o desejo da
devoção à Misericórdia Divina e a instituição de uma festa litúrgica, no Segundo Domingo de Páscoa, para celebrar a Divina Misericórdia. Jesus pediu também à Irmã Faustina a preparação para esta festa com uma novena, a iniciar-se em Sexta-feira Santa.
No seu Diário, pode ler-se o discurso de Jesus: “Estou a enviar-te com a minha Misericórdia aos povos de todo o mundo. Eu não quero castigar a humanidade sofredora, mas desejo curá-la, abraçando-a com força contra o meu Coração Misericordioso”.
Ela levou uma vida muito simples, como a última das irmãs da sua Congregação, muitas vezes sendo humilhada por não acreditarem na veracidade das suas experiências místicas, das revelações de que era mensageira para a humanidade.
Sempre paciente, ela tornou-se na Apostola da Divina Misericórdia, estendendo esta devoção a todo o mundo.
Podemos considerar três aspectos principais na missão da Irmã Faustina:
Primeiro lembrar o Amor Misericordioso de Deus a cada homem, revelado na Sagrada escritura.
Em segundo lugar, ensinar e divulgar novas formas de cultoà Divina Misericórdia de Deus.
Por fim, iniciar um movimento de apóstolos da Divina Misericórdia, que reavivem o espírito evangélico da confiança e abandono à Misericórdia de Deus e a misericórdia
para com o próximo.
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