sábado, 29 de agosto de 2026

Maria sinal de comunhão ou divisão?

 

Frauenkirche (Igreja de Nossa Senhora), Igreja Luterana, Dresden, Alemanha

 

Maria na Cristandade

Alguns teólogos

Alguns teólogos cristãos, mas não católicos e também alguns teólogos católicos partilham a opinião de que Maria (a par do Papa) é a causa principal da divisão entre cristãos.

Eu tentarei provar a tese precisamente contrária: Maria é sinal de União entre os povos.

Maria, sinal de União entre os povos, mas essencialmente entre católicos, as várias vertentes protestantes e ortodoxos porque há outras seitas como as testemunhas de Jeová que não são cristãs nem tão pouco religiões uma vez que nem sequer aceitam, no caso das testemunhas de Jeová, nem sequer aceitam Jesus Cristo como Deus, filho de Deus. E a generalidade das seitas não aceitam Deus Santíssima Trindade por isso não me deterei nesses casos, que surgem normalmente por inspiração, talvez literária, talvez filosófica, de iluminados, que pregam “afirmações” que não condizem ou estão em contradição com o Evangelho.

E saltando já para o que surgirá nas conclusões, Maria em todas as aparições reconhecidas pela Igreja nunca fez qualquer oposição ao Evangelho, incitando sempre ao cumprimento dos ensinamentos do seu Filho Jesus.

Com apenas três factos, defenderemos a tese de Maria sinal de comunhão na Igreja.

 

Concílio de Éfeso

Mas aquele Consolador, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, vos ensinará todas as coisas e vos fará lembrar de tudo quanto vos tenho dito. (Jo 14,26)

Quando Jesus pisou este solo em que nós hoje nos movemos, o Evangelho anunciado é o mesmo que hoje proclamamos, mas era tudo muito diferente. Não havia Igreja estruturada, nem sacramentos, nem muitas outras coisas. E foi ainda no tempo dos Apóstolos que foi escolhido Matias para ocupar o lugar deixado vago por Judas Iscariotes, que foi revogada a lei judaica sobre alimentos proibidos, e ao longo de dois milénios a Igreja, sempre na esperança de seguir a inspiração do Espírito Santo tem adaptado o acessório aos tempos, mantendo sempre a fé inicial transmitida por Jesus e depois de geração em geração e aprofundando essa fé.

No ano 431 realizou-se um importante Concílio, na Grécia, na cidade de Éfeso. A principal decisão que os padres conciliares tinham que tomar era sobre a natureza de Jesus. Jesus era Deus ou era homem ou era um anjo ou o que era?

Sempre invocando o auxílio do Espírito Santo, porque havia muitas correntes de opinião, que disputavam entre si as suas concepções e por vezes até de forma violenta, decidiram declarar que em Jesus coexistiram sempre duas naturezas: a natureza humana e a natureza divina. Jesus fora sempre pessoa e Deus ao mesmo tempo.

Uma multidão de devotos aguardava no exterior a decisão dos Padres Conciliares. Quando foi anunciada, nas varandas, a decisão, o povo explodiu de alegria. Talvez não porque tivessem a noção teológica do que se tratava sobre a natureza teológica de Jesus, mas porque deste modo, Maria, ao ser mãe do homem Jesus, era também Theotokos, a Mãe de Deus.

 

Lutero e Maria

Enquanto esteve escondido, simulando-se que estava preso, Martinho Lutero (1483-1586) escreveu um longo comentário ao Magnificat, em 1521, onde deixa clara a sua devoção a Maria.

Lutero nunca, em sua vida, atacou a figura de Maria. Sempre reconheceu a sua fé, humildade e exemplo para os cristãos. Ao contrário de outros chefes da Reforma que puseram e põem em causa o estatuto da Mãe de Jesus.

Do seu comentário ao Magnificat, podemos destacar alguns pontos que ele defende.

·        A Virgindade Perpétua de Maria como dogma.

·        A Imaculada Conceição de Maria, embora a Igreja só em 8 de Dezembro de 1854 tenha reconhecido oficialmente este dogma.

·        Divergiu de Roma ao afirmar que não se devia rezar a Nossa Senhora, nem pedir a sua intersecção, porque só Jesus salva.

·        Rejeitou alguns títulos atribuídos a Nossa Senhora, como, por exemplo, Rainha dos Céus, por considerar que isso era idolatria.

·        Afirmou que Maria não foi salva por seu mérito, mas por graça de Deus. Aliás, os luteranos têm um problema com a questão do mérito e da graça.

·        Lutero aceitava Maria como Mãe de Deus, o seu principal título, Theotokos, mas era contra qualquer outro título ou oração.

Grande ponto de divergência com a Igreja de Roma: para Lutero, Maria não deve ser venerada por si mesma, pelas suas virtudes ou méritos, mas porque Deus fez na sua pequenez e insignificância grandes coisas. Deste modo, todo o louvor a Maria será um louvor à graça de Deus atuante nela.

Para Lutero, acreditar na possibilidade de intercessão de Maria constituía idolatria. Deste modo, creio que negava a comunhão dos santos que professamos no Credo.



Nossa Senhora de Walsingham, Santuário de Walsingham, Norfolk, Inglaterra


Maria em Inglaterra

Em 1061, Lady Richeldis de Faverches, uma fidalga inglesa, que vivia em Walsingham, Norfolk, no nordeste de Inglaterra, teve visões de Nossa Senhora, em que Maria lhe mostrou a sua casa em Nazaré, onde ocorreu a Anunciação. Foi a forma de levar a senhora Richeldis à Terra Santa em peregrinação espiritual, pois decorriam as Cruzadas e a viagem física era muito perigosa.

A pedido da Virgem Maria, construiu-se em Walsingham uma réplica da Casa de Nazaré.

Na sua louca tentativa de destruir a Igreja de Roma por ódio e obstinação sexual em relação às mulheres e ao casamento, em 1538, o Rei Henrique VIII mandou destruir a Casa de Nazaré, em Walsingham.

O tempo passou.

Hoje, em Walsingham há dois santuários de Nossa Senhora, um da Igreja de Inglaterra (anglicanos) e outro da Igreja de Roma (católicos). Bem perto um do outro. Peregrinações de católicos de longe, da Índia, por exemplo, que se consideram evangelizados pelo Apóstolo São Tomé, vão até ao Santuário Católico.

No meu critério, a principal importância deste local e desta invocação de Nossa Senhora é ser comum a católicos e anglicanos e ambas as confissões considerarem e venerarem Nossa Senhora de Walsingham a padroeira nacional de Inglaterra.

Eis Maria factor de unidade!



Católicos e não católicos em Fátima, Altar do Mundo

Todos os portugueses já peregrinaram a Fátima algumas vezes. Pelo menos uma vez. Alguns várias vezes ao ano.

Deparamo-nos com pessoas de todas as raças. Missas, celebrações e orações em todas as línguas. Já participei numa recitação do terço, em que um mistério foi em árabe. Bem sabemos que vários católicos não acreditam em Fátima (não é dogma de fé, não é obrigatório acreditar ou aceitar), mesmo padres ordenados escrevem livros a atacar Fátima. Que pensar? Eu penso que é daqueles casos que se enquadram no texto evangélico que diz: Muitos são os chamados, mas poucos os escolhidos. E na mesma passagem do Evangelho, Jesus prescinde daqueles que convidou a manda buscar todos os “vagabundos” que encontrarem nas ruas.

Monsenhor Luciano Guerra, então Reitor do Santuário de Fátima, permitiu que um grupo de budistas tibetanos, chefiado pelo Dalai-Lama, rezasse na Capelinha das Aparições. Insurgiram-se alguns católicos mais conservadores e o seu ruído teve severas consequências. O Santuário de Fátima que desde sempre tivera o estatuto de Santuário Diocesano, foi classificado como Santuário Nacional, passando a sua tutela diretamente para a Conferência Episcopal Portuguesa, sob a ameaça velada de passar a ser considerado internacional e passar para a jurisdição da Santa Sé. E Monsenhor Luciano Guerra foi substituído no seu cargo.

Facto é que pessoas muito diferentes, nacionais e estrangeiros, continuam a afluir com devoção ao Santuário de Fátima, orando pela paz. Lembremos que a paz é o primeiro dom do Ressuscitado. E se alguns vão por turismo, talvez todos conheçamos casos em que esse turismo se transformou em fé. Costumamos falar de conversões em Fátima. Pessoas que vão, porque vão acompanhar amigos, passear, e chegam a Fátima e sentem algo e passam a fazer parte dos peregrinos habituais de Fátima, convertem-se, mudam e aceitam a Santíssima Trindade. Esse algo... é Fátima, é a Mãe de Deus a apelar à comunhão com o seu Filho.



Orlando de Carvalho