terça-feira, 12 de setembro de 2023

Olhar sobre as JMJ Lisboa 2023

 Comitê da JMJ 2023 virá ao Brasil incentivar participação no evento

 

 

Olhar sobre as JMJ Lisboa 2023

 

As JMJ são essencialmente uma atitude de evangelização. De contrário não teriam que ver com a Igreja e o seu múnus pastoral. A Igreja não tem no seu cardápio a organização de arraiais. As romarias têm uma parte espiritual, litúrgica, como se queira chamar, e outra de baile e comes e bebes e divertimentos. Isto é, missa, com ou sem sermão, e arraial. Isto acontece à maneira que o Evangelho relata o Anúncio como foi realizado por Jesus. Não há volta a dar. Eu sei que há paróquias (coitadas das paróquias, mas não tenho outro termo, incluo vários tipos de comunidades) que não aceitam que a festa do orago inclua festa popular; por outro lado, há paróquias (párocos) que investem tudo no bailarico e na digestão.

Que tem isto a ver com as Jornadas Mundiais da Juventude?

Não, não ensandeci. Em Igreja tudo tem a ver com tudo.

 

Há pontos de contacto, pelo menos, entre a JMJ e o ICNE. O Congresso Internacional para a Nova Evangelização teve sessões em Viena 2003 (Arcebispo Shönborn), Paris 2004 (Arcebispo Lustigier), Lisboa 2005 (Patriarca Policarpo), Bruxelas 2006 (Arcebispo Daneels) e Budapeste 2007 (Arcebispo Péter Erdo).

Respondendo ao apelo do Papa João Paulo II, estes bispos-cardeais avançaram com a organização de um congresso para reflectir sobre o tema Nova Evangelização. O congresso teria 4 sessões, depois ampliadas para 5, nas cidades destes cardeais.

Não foi aberta a todo o público, não havia estrutura para tal, mas foi um conjunto de conferências, debates, celebrações.

E as cinco dioceses enviaram representantes às sessões das outras cidades participantes. Vieram participar católicos de outras dioceses e de outros países, por exemplo de Inglaterra.

Logo desde Viena, uma das acções que tiveram melhor acolhimento pelos participantes foi a abertura das portas das igrejas, em alguns casos 24 horas por dia. Os congressistas insistiram que fosse uma conclusão do Congresso precisamente o alargamento do período das portas das igrejas, dos locais de culto público. E que abrissem as portas em igrejas em maior número. Este anseio não foi apenas constatado na Áustria, mas em todas as sessões do Congresso. Não obstante, sendo praticamente o único pedido dos congressistas, os solícitos cardeais a responder à solicitação do Papa, não deram cumprimento, de modo nenhum, a esse pedido.

O Congresso valeu para mim pelo contacto que tive com pessoas de outras culturas mas que estavam unidas na mesma fé e com as mesmas ambições: construir uma Nova Evangelização, pela participação conjunta em celebrações e encontros pastorais. Mais nada. O Congresso acabou e quando acabou: Ponto final. Perante a solicitação de outras dioceses europeias para darem continuidade ao Congresso nas suas cidades, os quatro cardeais que já tinham acolhido Budapeste, não acederam a dar continuidade ao ICNE.

 

Estive numa reunião preparatória do Jubileu dos Acólitos em Lisboa, onde os representantes dos acólitos das várias paróquias manifestaram o desejo de ir em procissão, ou marcha, do centro da cidade até ao Jerónimos, dando testemunho público. E outras iniciativas. O padre do Patriarcado responsável pelo sector dos acólitos, e hoje juiz, não autorizou porque “sabia” que depois não aparecia ninguém da parte dos acólitos e o sector ia fazer má figura. Não obstante os presidentes das associações de acólitos, ou outros representantes presentes, se comprometerem a assumir as responsabilidades inerentes. Que Deus perdoe. Aconteceu como na situação que relato do travão que os cardeais puseram ao prosseguimento do ICNE.

Se dava muito trabalho aos já idosos cardeais, se dava muito trabalho ao tal padre do sector da liturgia, orientarem o seguimento do ICNE ou a manifestação dos acólitos, que passassem a tarefa a outros.

 

As JMJ são importantes. São um marco na vida de quem participa. Falo pela experiência do que presenciei. Mas podem sufocar.  

Um jovem meu familiar esteve como voluntário responsável num local de acolhimento de peregrinos em Lisboa. Algumas dezenas de jovens. Que vieram de longe. A relação estabelecida foi de tal ordem, que ele está a receber correspondência, electrónica, claro, convidando-o a ir às Ilhas Maurícias como visita desses que estiveram aqui como peregrinos. Convidam-no a ele para ficar nas casas de família deles. Fomos capazes de receber tão bem, que querem retribuir, não pagar, mas manter o elo criado. Convidam o jovem e a família. Claro que uma viagem, ou n viagens, às Maurícias é caro e as famílias podem não se sentir à vontade para embarcar na aventura.

E dentro da diocese de Lisboa? O Bispo responsável, já era. As comissões cumpriram as suas tarefas e dissolveram-se. A Jornada, ou como dizem noutras línguas o Dia Mundial da Juventude, parece não ir passar lde um Arraial, muito marcante. Ponto.

Pode argumentar-se que São João Paulo II lançou a ideia de uma Jornada, ou um Dia, sem ambições de continuidade. Pode argumentar-se o que se quiser. O Papa nunca pensou que em 1986 aparecessem tantos jovens em Roma. E que aumentassem daquela maneira nas Jornadas seguintes até atingir participações de 4 ou 6 milhões. Pois… nem São Paulo imaginou a repercussão das suas cartas, e os outros Apóstolos e missionários ao longo dos tempos, que chegássemos onde estamos, numa Igreja viva, cada vez mais viva, talvez menos vistosa, menos poderosa, mas onde só está quem quer e disponível a uma doação que pode ser contida ou explorada.

As JMJ Lisboa não têm que ser como a Feira de Sevilha, já têm exemplo a seguir, podem ser como a EXPO 98.

Ainda é cedo, e sei que estou em desacordo com muitos, para fazer avaliações, menos ainda avaliações profundas.

 

Na loja, ao fim do dia faz-se o caixa, isto é lança-se numa folha de papel a relação de dinheiro que entrou e a do dinheiro que saiu. Mas isso nada conta para saber a saúde da empresa. Interessa saber ao fim do mês qual é a conta de ganhos e perdas. Mais, o balanço é feito no final do ano, para saber se os lucros, se o saldo, é positivo ou negativo. Mas é preciso ter em ordem o caixa feito diariamente. Esta avaliação já é necessária, mas só para não nos desorientarmos. Uma semana depois de terminar a JMJ ouvi uma entrevista na televisão em que o jornalista perguntava com insistência e entusiasmo qual era a programação de espectáculos ou actividades que já havia para o denominado altar-palco. Curiosidade jornalística ou tentativa de apanhar em falso quem ainda não tinha feito a “devida” programação? Por essa altura, havia reclamações por se ter desperdiçado comida por má logística. Nós não tínhamos formação profissional para aquilo. Ninguém tinha. O esforço de muitas pessoas, jovens e menos jovens, foi imenso. Não me apercebi que o trabalho dos voluntários ficasse para trás por causa de gadgets, jogos, namoros, farras. Houve certamente, mas em dimensão desprezível.

Foi Fernando Santos, salvo erro, que se mostrou irritado quando alguém disse: Já somos campeões, missão cumprida. Não, se somos campeões da Europa, vamos trabalhar mais para manter e aumentar a nossa posição.

Consta que D. Américo Aguiar vai para Roma organizar as próximas JMJ. Mas é importante que alguém fique em Lisboa a trabalhar no seguimento da JMJ. E tal como esta se estendeu a todo o país com as sessões preparatórias, que o país entre numa dinâmica contínua de JMJ (de Pastoral Juvenil?). Enquanto decorria a JMJ em Lisboa com o Papa, os Escuteiros faziam-lhe concorrência na Coreia do Sul num encontro mundial. Não podemos viver em concorrência, com inveja ou ciúmes. Os escuteiros da Coreia não cabiam em Lisboa e quem veio a Lisboa talvez não estivesse interessado em ir acampar para a Coreia. Dentro da Igreja vivemos em capelinhas e em disputas de interesses. Li tanto escrito a criticar as JMJ, antes e enquanto decorriam, porque eram lugares de orgias, obscenidades, de anticristos, acusações feitas pelos extremos políticos de um e de outro lado e de grupos dentro da Igreja, estes normalmente daqueles a que simpaticamente chamo apenas de saudosistas.

Há muita gente a trabalhar com jovens, muita gente a fazer bom trabalho e que tem o direito divino de ser apoiada por todos nós para o levar a cabo, porque está a servir Deus.

Este meu olhar sobre as JMJ é uma reflexão apenas. Nem isso. É um conjunto mal organizado de tópicos para uma reflexão. Não é um programa de acção. Em primeiro lugar porque ninguém reconhece ao Orlando legitimidade para o fazer.

A grande questão está em saber se querem nas próximas JMJ fazer arraiais ou romarias, se queremos como os responsáveis do ICNE manter as portas das igrejas fechadas ou abertas. E com pessoas para fazer acolhimento. Não têm que ser padres. Saber acolher não é exclusivo dos padres. E até há padres que não têm jeito para acolher.

 

Perto de mim há uma agência funerária com uma montra com muitas imagens de santos, para vender. Nesse tempo, as igrejas perto de mim fechavam quando os senhores padres iam para retiro, ou para férias, uma ou duas semanas. E avisavam na missa, recomendando aos fiéis que, para funerais, podiam recorrer (nós, os fiéis, a Igreja) aos padres das paróquias vizinhas. Neste ambiente, um dia deparei-me com um idoso, ajoelhado ou inclinado, diante da montra da agência funerária a rezar. Com todos aqueles santinhos, era o mais parecido com a igreja que tinha as portas fechadas.

 

Quando eu era mais novo pensava que podia e que ia mudar muita coisa. Num dado momento convenci-me que não vou, nem posso, nem Deus quer, porque já há Deus para isso, desisti que querer endireitar o mundo. Mas isso não é escusa para mim nem para ninguém parar de trabalhar no Anúncio da Boa Nova.

Quanto às Jornadas e a uma primeira avaliação:

1)   Quem mandava realmente? D. Américo Aguiar? O Patriarca? Os eternos assessores dos sucessivos patriarcas que vão passando de Patriarca para Patriarca e controlando (mal) o Patriarcado? As entidades particulares financiadoras das JMJ?

2)   Não existiu o anunciado controlo de metais. Era impossível, reconheço.

3)   Aos 25 mil voluntários foi dito que não tinham espaço reservado, que se instalassem onde houvesse espaço e se chegassem os peregrinos marcados para aí, que tinham que lhes ceder o lugar.

4)   Sobre a preparação dos ministros extraordinários da comunhão, depois de um período de preparação de dois anos desperdiçado, foi mal feito, em meio dia de teoria eucarística. Os doentes celíacos foram mais mal tratados que os leprosos na Jerusalém de Jesus, com informações propositadamente erradas ou super-desorganização.

5)   Verificação de pessoas pelas autoridades? Foi feita na última reunião com o Papa, em Algés, em que estavam apenas os voluntários, já depois das Jornadas oficialmente encerradas. Aí, só aí, quiseram ver as malas todas abertas. Malfadadamente o espaço escolhido não chegava para os voluntários.

6)   E a despesa absolutamente estúpida deste encontro num espaço da Câmara de Oeiras, porque havia um desentendimento entre o governo e o presidente da Câmara de Lisboa?

7)   Como foi possível a Igreja deixar-se achincalhar e entrar na novela dos custos e lucros financeiros do empreendimento? Desde quando a Igreja defende que uma igreja se constrói para dar lucro (não obstante as missas por intenção, os funerais, a celebração de sacramentos)? Se é para isso, mais vale não construir a igreja.

8)   Quanto a refeições. Uma das opções eram restaurantes dos supermercados Pingo Doce, que penso que há por toda a parte. Quem estava à espera de lucrar com aluguer de quartos, enganou-se, porque aqui imperou a hospitalidade. Quem estava à espera de vender muita cerveja, enganou-se. Foram fornecidas senhas de refeição nuns casos, mas também sacos com rações que estavam bem fornecidos e até sobraram. Algumas pessoas deitaram fora porque era muito alimento ou porque não gostavam de algumas coisas. Muitas não usaram os contentores assinalados para depositar ali as embalagens de comida de que não gostassem, porque os contentores de lixo eram poucos e começaram a usar esses contentores para embalagens de comida, para deitarem fora garrafas de água vazias e outro lixo. Já vi chefes de uma organização juvenil a comprarem num supermercado latas de comida para cães/gatos e esparguete para alimentarem o pessoal. Acho que ninguém tem queixas desse tipo das JMJ.

9)   Podia ter corrido melhor, mas também podia ter corrido muito pior. Depois de tantos estranhos a esta actividade, ou antagonistas se terem pronunciado, é tempo de nós fazermos a nossa avaliação e realçarmos para fora, sempre que for com honestidade, aquilo em que fomos bons. Se tivesse aparecido apenas metade das pessoas que vieram? Já imaginaram os problemas logísticos? E tivesse vindo o dobro das pessoas, já imaginaram o problema logístico? Se pensarmos no que se passou com o Euro 2004 e a construção dos estádios, podemos dar-nos por muito satisfeitos por não fazermos parte dum desastre idêntico.

10)O Papa afirmou que foram as JMJ mais bem organizadas em que já esteve. Devemos reter essas palavras. Como antes escrevi, não para dormirmos sobre elas, mas para partirmos numa dinâmica de pastoral de Nova Evangelização.

11)Não sei se peco, mas coloco assim a questão para terminar. Então Jesus compadeceu-se daqueles milhares que o seguiram em Israel para O escutarem e alimentou-os sem ali haver comida e não havia de providenciar para estes que percorreram centenas ou milhares de quilómetros para estarem com Ele? É que Dom Américo Aguiar errou ao afirmar, quando o Papa adoeceu, que sem Papa não havia JMJ. Só se realizavam com o Papa. O Papa foi uma boa motivação, espoletou todo o movimento, mas ninguém veio adorar o Papa, mesmo os que gritaram que eram a juventude do Papa. Então e os que gritam que são do Kiko, ou do Baden Powell ou do Josemaria? Têm que ter em primeiro lugar o Jesus, não como uns ou outros desejam, mas como está no Evangelho.

12)E abram as portas das igrejas. Com misericórdia.

 

 

 

 

 

quinta-feira, 27 de julho de 2023

Jornadas Mundiais da Juventude Lisboa 2023

JMJ2023: Já foi divulgado o logótipo da Jornada Mundial da Juventude em  Portugal - Atualidade - SAPO 24 

 

Jornadas Mundiais da Juventude Lisboa 2023

Unidade Universal

 

A esmagadora maioria do país prepara-se para acolher as Jornadas Mundiais da Juventude e o Papa Francisco. Como sempre acontece as Jornadas não agradam a todos e alguns contestam-nas ostensivamente, inventando as mais bárbaras objecções.

Os “ataques às JMJ” começaram com a inoportunidade com que foi convocado o “Grande Plenário Judicial” para apreciar os “milhares” de crimes de pedofilia e abusos sexuais cometidos por ministros e agentes da Igreja Católica. Esta inoportunidade é da própria CEP! E a montanha pariu um rato!

Criaram-se os mais variados casos que foram títulos e cabeça de cartaz na comunicação social, contestando: os locais escolhidos, os custos do evento, tudo afinal, culminando na polémica que envolveu o altar do Parque das Nações, como cereja no topo do bolo.

Em 13 de Maio de 2017, o Papa Francisco criticou o clericalismo como uma peste que assola a Igreja. Tudo tranquilo.

Salvo erro em 10 de Julho de 2023, D. Américo Aguiar diz que não quer converter jovens. Caiu o Carmo e a Trindade.

Vejamos como a Igreja tem enfrentado

os reveses

os mal-entendidos

as alucinações de alguns não cristãos que contestam as JMJ e o fazem discutindo a Teologia que desconhecem

as lamentações sobre inconvenientes deste evento para a população portuguesa, perturbando o seu dia-a-dia, a mobilidade, etc.

a dimensão dos custos para o erário público?

A Igreja vem repetindo o erro de São Paulo em Atenas e defende-se tentando demonstrar que este gesto de comunhão e evangelização dá lucro.

Isso!

Que dá lucro e por isso se deve realizar.

Mas a JMJ é para dar lucro? A missa é para dar lucro? Ficam os objectores com autoridade para limitar ou cortar a liberdade religiosa?

Aparentemente ainda faltam uns dias para as JMJ, mas de facto já começaram há muito. Todos nos apercebemos, nas ruas, por todo o país, nos trabalhos preparatórios das Jornadas com a participação de milhares de jovens, de todos os países do mundo que vieram mais cedo. Vieram conviver com outros jovens, ver como vai ser, em comunhão na procura de Jesus. Há pouco na televisão, uma jovem da República Checa estava eufórica: participava nos trabalhos preparatórios e queria ver o mar, no país dela não há mar e ela nunca viu o mar.

Quanta riqueza nestas JMJ Lisboa 2023!

Alguns devem achar que seria preferível ver os jovens e os menos jovens que estão envolvidos nestes trabalhos preparatórios que decorrem há algum tempo, a passar o tempo com ocupações digitais, redes, jogos, pornografia? Vê-los por aí sem fazer nada ou a beber álcool e outros aditivos?

Perdia-se o intercâmbio entre jovens de todos os países do mundo? Intercâmbio tão defendido pelos responsáveis educativos. Não é preferível estar na JMJ que numa visita de estudo ou de fim de ano nos bares do sul de Espanha a virar litros de álcool?

E estamos a ver o Bispo Américo Aguiar ir a países de onde há  jovens que queriam vir a Portugal, não podem vir e ele leva-lhes um cheirinho de JMJ aos seus países.

Esta comunhão de fiéis é prescindível? Não!

Nós católicos, e outros cristãos, quem sabe se também outros gente ainda à procura de orientação, temos o direito legal de nos reunirmos. E o Estado que recebe os nossos impostos tem o dever de ajudar, se a ajuda for solicitada.

 

Fala-se de um milhão de peregrinos para as JMJ.

Como correu a EXPO 98? E até deu muito lucro em variadíssimos aspectos, embora isso não entre nestas contas.

Como foi com a organização do Euro 2004?

E Portugal não está a preparar uma candidatura com a Espanha para um próximo Campeonato do Mundo de Futebol?

Afinal é bom ou mau termos milhões de estrangeiros a visitar o nosso país e partilharmos com eles as nossas belezas nacionais? Quando o mundo enfrenta tantas guerras, Portugal abre-se ao acolhimento de todos os estrangeiros que venham por bem.

Não têm sido habituais nas anteriores JMJ distúrbios e desacatos, guerras de bêbedos e de vândalos, prisões de desordeiros. Mas é isso que acontece quando há em Portugal um jogo de futebol em que Benfica, Sporting ou Porto recebem fãs do clube adversário, e, no meio deles, vândalos denominados hooligans.

Um amigo meu insiste em afirmar em tom sarcástico que isto são as Jornadas Mundiais da Igreja. E então, pergunto eu? Milhões de pessoas peregrinam anualmente a Fátima. Somos um país já preparado para grandes aglomerados de pessoas com finalidade espiritual.

Por fim, analisemos a questão quanto aos lucros verdadeiros: a alegria que se vê no rosto de tantos jovens (de todas as idades), que já enchem todos os distritos do país, o empenho que nestes tempos está a ocupar tantas pessoas que fazem gosto em partilhar o seu tempo para ajudar. Comungarem o mesmo Evangelho nas diferentes línguas e segundo diferentes culturas. Anunciando o Evangelho como Jesus ensinou: pelo testemunho.

Os portugueses estão felizes por esta oportunidade de celebrar a sua fé.

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo.

 

segunda-feira, 17 de julho de 2023

Frei Bartolomeu dos Mártires


 

“O Bispo deve constantemente confrontar a sua vida com o ideal que assumiu, porque a vida convence e atrai mais do que as palavras; só a fraternidade vivida com os seus presbíteros poderá impedir que o Bispo viva «só» no meio das multidões e no meio dos problemas; uma vida pastoral que pretenda responder às diversas inquietações de hoje deverá conciliar a contemplação com a encarnação no mundo; esta pressupõe a humildade que leva o pastor a acolher a verdade que brota tanto do interior da Igreja como de fora dela – um acolhimento com traços maternais, para manifestar «o rosto materno de
Deus»” – do livro Stimulus Pastorum, da autoria de Frei Bartolomeu dos Mártires, citado por Dom Jorge Ortiga, Arcebispo de Braga, na 8ª Assembleia Geral do Sínodo dos Bispos, em 5 de Outubro de 2001, no Vaticano.
Bartolomeu do Vale nasceu em Lisboa nos princípios de Maio de 1514, filho de Maria Correia e Domingos Fernandes. Os pais chamaram-lhe Bartolomeu e baptizaram-no na Igreja Paroquial dos Mártires, devido à grande devoção que tinham por Nossa Senhora dos Mártires.
Em 1528 juntou-se aos dominicanos, que muito gostava de ouvir pregar e acrescenta ao seu nome “dos Mártires”, pela mesma devoção dos pais a Nossa Senhora dos Mártires. Distingue-se em gramática, artes e teologia, mas em tudo mostrando sempre grande inteligência. Foi eleito prior do Convento de São Domingos de Benfica, em Lisboa. Em 1558 foi nomeado Arcebispo de Braga, título que aceitou apenas por obediência. Até chegar a bula papal com a sua nomeação, enclausurou-se no convento de
Azeitão. A 4 de Outubro de 1559 entrava em Braga e tomava posse da cátedra arquiepiscopal. Exerceu o múnus episcopal com grande zelo e caridade. Mandou retirar do Paço tudo o que era luxo mundano e futilidade, vivendo com grande modéstia e simplicidade. O zelo evangélico e pastoral em relação ao rebanho que lhe tinha sido confiado é bem esclarecido por Frei Luís de Sousa:
“Era fim de Janeiro, tempo ventoso e frigidíssimo. Deixou o abrigo e chaminés dos seus paços, foi-se experimentar os maus caminhos e piores gasalhados das aldeias... Mas queixavam--se os seus que não podiam aturar a continuação do trabalho, dos caminhos, das invernadas; ele só, com trabalhar mais que
todos; sofria desassombradamente todas as incomodidades; e nos caminhos, por fragosos e ásperos que fossem, era o primeiro que os acometia, pondo-se na dianteira.
Passavam um dia de um lugar para outro. Salteou-os uma chuva fria e importuna, que os não largou na maior parte da jornada; e corria um vento agudo e desabrigado, que os congelava.
Tinha-se adiantado o Arcebispo, segundo seu costume, que era caminhar quase sempre só pera se ocupar com mais liberdade em suas contemplações; e ia fazendo matéria de tudo quanto via no campo e na serra, para louvar a Deus.
Ofereceu-se-lhe à vista, não longe do caminho, posto sobre um penedo alto e descoberto ao vento e à chuva, um menino pobre e bem mal reparado de roupa, que vigiava umas ovelhinhas que ao longe andavam pastando. Notou o Arcebispo a estância, o tempo, a idade, o vestido, a paciência do pobrezinho: e viu juntamente que ao pé do penedo se abria uma lapa, que podia ser bastante abrigo para o tempo. Movido de piedade, parou, chamou-o, e disse-lhe que se descesse abaixo pera a lapa e fugisse
da chuva, pois não tinha roupa bastante pera a esperar.
– Isso não! – respondeu o pastorinho, – que, em deixando de estar alerta e com o olho aberto, vem logo o lobo e leva-me a ovelha, ou vem a raposa e mama-me o cordeiro!
– E que vai nisso? – disse o Arcebispo.
– A mi me vai muito – tornou ele, – que tenho pai em casa, que pelejará comigo, e tão bom dia se não forem mais que brados. Eu vigio o gado, ele me vigia a mim: mais vale sofrer a chuva...
Não quis o Arcebispo dar mais passo. Esperou que chegassem os da sua companhia, contou-lhes o que se passara com o menino e acrescentou:
– Este esfarrapadinho inocente ensina a Frei Bartolomeu a ser Arcebispo! Este me avisa que não deixe de acudir e visitar minhas ovelhas, por mais tempestades que fulmine o céu; que, se este, com tão pouco remédio pera as passar, todavia não foge delas, respeitando o mandado do pai mais que o descanso,
que razão poderei eu dar, se, por medo de adoecer ou padecer um pouco de frio, desemparar as ovelhas cujo cuidado e vigia Cristo fiou de mim, quando me fez pastor delas?” – em Vida e Obra de Dom Frei Bartolomeu dos Mártires, de Frei Luís de Sousa.

Convocado o terceiro Concílio de Trento pelo Papa Pio IV, Dom Frei Bartolomeu dos Mártires viajou incógnito, disfarçado de simples padre, para evitar as honras que lhe eram devidas. Chegou a Trento a 18 de Maio de 1561.
Durante o Concílio foi-lhe confiada a revisão dos livros que deviam ser proibidos. Notabilizou-se pelas suas intervenções, muito claras, falando principalmente sobre a reforma dos costumes eclesiásticos. Apresentou duzentas e sessenta e oito petições ao longo dos trabalhos conciliares. Duas frases atestam
bem o seu pensamento sobre o assunto e a frontalidade da sua atitude: “Vossas senhorias são as fontes donde todos os prelados bebem; necessário é portanto que a água seja limpa e pura”. Ou: “Os ilustríssimos e reverendíssimos cardeais precisam duma ilustríssima e reverendíssima reforma”.
Num concílio suscitado em grande parte pelas reformas protestantes, o arcebispo de Braga afirmou que “A Igreja está mais precisada de reformas que de dogmas”.
De volta à sua arquidiocese continuou a governar ainda com mais zelo, depois das propostas e dos reparos que fizera em Trento. Esta situação levantou contra si alguns protestos e inimizades. Perante a ignorância com que se deparava, tanto entre o povo como entre os padres, organizou escolas para formação do clero e mandou ler textos seus ao povo sobre doutrina – o Catecismo ou Doutrina Cristã e
Práticas Espirituais. Escreveu trinta e dois livros, um dos quais, O Estímulo dos Pastores, já atrás citado, foi oferecido a todos os participantes no Concílio Vaticano I, em 1870 e novamente no Concílio Vaticano II, em 1962!
Para dar concretização a uma das recomendações do Concílio de Trento, fundou o Seminário de Braga, que é considerado a primeira casa de formação de sacerdotes em todo o mundo.
Em relação à jurisdição eclesiástica e regalias do clero era intransigente, entrando em conflito mesmo com o rei. Em 1582, estando Portugal ocupado pelos castelhanos, Frei Bartolomeu dos Mártires renunciou ao cargo, retirando-se para o Convento de São Domingos que fundara em Viana do Castelo. 

Partiu para junto de Deus a 16 de Julho de 1590.
Sua Santidade João Paulo II beatificou Frei Bartolomeu dos Mártires a 4 de Novembro de 2001.
Ficam ainda as palavras indignadas de Frei Bartolomeu dos Mártires, no Concílio de Trento, contra a ignorância:


“Não temos quem ensine, quem confesse, nem quem pregue frutuosamente. Por isso ninguém estuda, ninguém trabalha por saber e geralmente se tem por erro gastar tempo, vida e fazenda nas Universidades: quando basta servir ociosamente ao bispo; ou a seu parente sem mais cansar, nem saber, para gozar rendas de grandes benefícios: quando vale mais a ignorância com poucas onças de favor, que a ciência e boas letras com grandes pesos de merecimento”.

Já depois da publicação deste capítulo na obra "Os Santos de João Paulo II", em 2004, o Papa Francisco canonizou Frei Bartolomeu dos Mártires em Roma, no dia 10 de Novembro de 2019.

A Igreja comemora São Bartolomeu dos Mártires a 18 de Julho.

quarta-feira, 5 de julho de 2023

Por que morrem as crianças?

 

A imagem mais antiga que possuo de uma criança associada à morte remonta aos meus seis ou sete anos e é das mais presentes que tenho desse aspecto da vida que mais dificuldade tenho em compreender: a morte. E esta criança, recordo-a sempre que vejo pares de cerejas. Por causa dela, tentei sempre evitar que as minhas filhas brincassem usando pares ou trios de cerejas como brincos. Uma coisa tão bonita!

Tratou-se de um miúdo do bairro. Almoçou e durante o almoço usou como costumava fazer-se então, colocar cerejas cujos pés estão unidos como se fossem brincos na orelha, contaram os vizinhos, que ouviram os pais nas suas lamentações. Depois do almoço comeu gelado. Diziam, antigamente ligava-se muito a essas coisas, que o frio do gelado lhe teria parado a digestão. Foi de urgência, em ambulância, porque nesse tempo as pessoas em geral não tinham viatura própria, para o hospital. Faleceu a seguir. Não me recordo o seu nome.

 

Quando eu frequentava o Liceu de Camões faleceu um aluno. Eu não o conhecia. Recordo a consternação entre todos nós, mesmo entre os que não o conheciam e a indignação da minha professora de Matemática, a Dra. Ondina de Vasconcelos, pela forma como o Reitor, o Dr. Sérvulo Correia, tratou do assunto. Ela partilhou connosco que fosse ela a mandar no liceu, teria dado a possibilidade de participar nas exéquias a todos os alunos que o desejassem, sem marcação de falta, ou que fosse enviada uma delegação representativa. Não aconteceu uma coisa nem outra. E sobre a possibilidade de os alunos faltarem, esta senhora foi minha professora durante quatro anos e faltou uma vez. Apenas uma vez. Explica a consideração em que tinha a assiduidade. Talvez o Reitor estivesse demasiado ligado ao regime para tomar iniciativas tão ousadas.

 

As palavras mais dolorosas desta crónica referem-se à nossa filha mais velha, com vinte e seis anos. Estava internada no Hospital Curry Cabral, nunca entendemos bem porquê, nem para quê, mas ela era diabética e os médicos convenceram-nos. Na véspera da sua partida, o médico assistente, um jovem, veio contar-me assim num canto, quase em segredo, que na ausência dos médicos da equipa, outra médica, que estava portanto apenas em substituição, deu um analgésico à minha filha diferente do que ela estava habituada a tomar e que não o devia ter feito. E ele, médico assistente, quando entrou de novo ao serviço, deu à minha filha o analgésico habitual. Acrescentou que não lhe passou pela cabeça que a outra médica lhe tivesse dado um medicamento diferente. Acontece que ambos os medicamentos agiam sobre o Sistema Nervoso Central. Mas ele não conferiu o registo diário de prescrições, porque nunca pensou que um médico que não era do serviço tivesse alterado a medicação. Uma grande conversa, quase em sussurro, sem nada de concreto e eu sem perceber, nesse dia, que ele estava tão-somente a pedir-me desculpa. A nossa filha faleceu nessa noite sozinha no hospital. A mãe nunca se perdoou não ter lá passado a noite. Como podia ela, ou eu, imaginar a realidade que ali estava a acontecer? Foi cruel ninguém ter falado connosco com clareza, explicarem-nos, terem-nos dito para ficarmos com a nossa menina nessas últimas horas. No dia seguinte, de manhã, porque nós passávamos lá os dias quase todos, ao chegarmos, em vez de nos cumprimentarem como era habitual, deparámo-nos com os funcionários todos a virarem-nos as costas, a fugirem de nós, autenticamente a fugirem, de olhos no chão, e quando entrámos no quarto, a cama da nossa menina estava… não estava lá. Não percebemos logo. Começámos a perguntar o que se passava, se tinha ido fazer algum exame. Os outros doentes calavam ou viravam as costas, e os funcionários continuavam a fugir de nós. De mim, da minha mulher e da filha que nos acompanhava. Foi um filme de terror antes de vir a dor. Os três a correr pelo hospital e a chamar pela nossa menina. Só víamos pessoas de olhos no chão e a encobrirem o rosto. Finalmente chamaram-nos ao gabinete do Director de Nefrologia, um médico que trabalhava no hospital e era também director num centro de hemodiálise, propriedade de uma empresa de venda de máquinas de hemodiálise. Um capitalista que só pensava em dinheiro e não queria saber dos doentes. Ingénuos, nunca pensámos que chegassem ao ponto de usar uma jovem como cobaia sem autorização. Quando o Director nos contou, gritámos e chorámos os três, o pai e a mãe e a irmã, gritei bem alto “assassinos” repetidas vezes enquanto chorávamos amargamente. Continuei a gritar e a acusar de “assassinos” pelos corredores do hospital, e perguntando aos gritos onde estava a nossa menina. Finalmente e para acabar com aquilo, o médico Director do Serviço, que falsificou os dados da ficha da nossa filha, mandou chamou um familiar para lhe entregar um recado para nós, uma vez que não teve a coragem de nos voltar a enfrentar, com uma ameaça. O corpo da menina seria liberto de imediato se eu me calasse, caso contrário, ficava para autópsia. Calei-me. Não queríamos aumentar a nossa dor, passando pela autópsia e esta seria facilmente falsificada. E não nos devolviam a menina.

A nossa menina está no Céu.

 

Neste rol de crianças e jovens, segue-se o meu primo Jorge. Foi acometido por uma doença súbita neurodegenerativa e faleceu em muito pouco tempo. Era jovem, mas deixou esposa e dois filhos. E pais órfãos.

 

O meu genro Miguel também foi um caso estranho. Sentiu dores no tronco, depois dores e paralisia dos membros, e em dois dias ficou tetraplégico.

Incluo como crianças e jovens mesmo os que já são mais velhos, mas da idade das minhas filhas, pois é assim que as considero e aos seus amigos.

O Miguel deixou um testemunho muito valioso para este tempo em que todos parecem obcecados pela eutanásia. Embora paraplégico, completamente paralisado do pescoço para baixo, mesmo com dificuldade para os movimentos necessários à respiração e à digestão, ele continuou a realizar o trabalho que fazia normalmente e para o qual tinha formação e a receber salário. Trabalhava em casa, usando um computador adaptado à sua situação, teclando com uma vara segura na boca. Até dava contributos para a Wikipedia.org. No seu sofrimento, físico com dificuldade em respirar por falta de força para os músculos que movem os pulmões, no sofrimento moral por se sentir 100% dependente e toda a humilhação (considera-se humilhação ou não, depende da perspectiva) dessa dependência total. Numa das crises respiratórias, foi ao hospital, lá ficou sozinho e de lá partiu para Deus.

Vem a propósito do Miguel lembrar que a eutanásia tem principalmente duas explicações. Incapacidade para motivar e apoiar o doente para continuar a viver e dar-lhe motivos de esperança e de alegria. Sim, o Miguel era alegre, dentro de tanto sofrimento. Ele queria viver, conviver, não morrer. Impaciência de quem convive com o doente, quando há quem com ele conviva, porque é fácil achar um grande incómodo cuidar de uma pessoa nestas condições. E os apoios do Estado, ou de qualquer entidade, são o que sabemos. Embora noutros países exista um incitamento à eutanásia precisamente porque é mais barato e dá menos trabalho que aturar uma pessoa em situação limite de sofrimento.

 

O Paulo faleceu aos quarenta e nove anos, mas como expliquei anteriormente, ele era da idade das minhas filhas, colega delas e sofri como se fosse meu. Foi um cancro. Ele estava sempre a enviar fotografias, publicava-as na Internet, com algumas graças, cheio de vontade de viver. Mas Deus chamou-o à sua presença.

 

Uma criança, colega de escola das minhas filhas, filho de imigrantes chineses, foi atropelada numa Estrada Nacional. Este facto foi o ponto de partida para a criação de uma Federação Concelhia de Associações de Pais. Na altura, a maior do país. Neste caso houve sensibilidade da escola para fechar e os colegas e professores, a comunidade escolar, poder participar nas exéquias.

 

Lembro também o Vítor Hugo. Este tem o nome afixado no mural em Belém entre os Combatentes mortos na Guerra do Ultramar. Um jovem na flor da idade que terminou num passeio de helicóptero que caiu, em Angola.

 

O neto do amigo José V. que andava na nossa catequese. Se me recordo bem foi um tipo de leucemia que o levou num espaço de tempo muito. Logo a seguir a um passeio da catequese a Sintra, onde ele fez uma linda composição com flores.

 

Muitos casais não conseguem entender uma realidade muito simples. Não entendem, desde logo porque nem admitem pensar que esta situação lhes possa acontecer. Ora, quando os filhos são apenas um, se ele morrer, os pais ficam sem filhos. Acresce que quando o casal tem apenas um filho, tende naturalmente a dar tudo a esse filho, porque é o único, porque nele está todo o sentido de vida dos pais.

 

Um casal passou pelo drama da morte de um filho antes de nascer. O sofrimento tirou-lhes o discernimento, cremaram o bebé e guardaram escrupulosamente as cinzas em casa no quarto de dormir com casal. Foi uma tragédia incomensurável, um choro contínuo, um desnorte, um desapego da vida. Uma dificuldade de se encararem, de falarem no assunto, de admitirem que outros casais pudessem ter bebés, depois crianças em crescimento, vivos.

Um outro casal também pais de filho único confluíam neste toda a sua esperança, a sua razão de viver. Davam-lhe tudo. Até lhe deram a mota com a qual ele se matou, numa noite em que regressava de uma festa.

Ainda outro casal com uma menina com um tumor na cabeça. Fez uma cirurgia, mas era impossível extrair a totalidade do tumor e o remanescente já se sabia que continuaria a crescer. Assim, de vez em quando, havia nova cirurgia, porque o tumor continuava a crescer e esmagaria o cérebro se não fosse cortado, uma vez que extraído não podia ser. E numa dessas cirurgias, na última, a menina já não acordou. A mãe afogou-se em lágrimas enquanto o pai se afogava em vinho. Após anos de sofrimento conseguiram recuperar, na medida em que se consegue continuar a vida numa situação destas.

Depois do breve rol de crianças em sofrimento de morte, referimos o sofrimento de três casais que ficara órfãos de filhos. Um filho que morre é um pedaço de coração que é arrancado aos corações dos pais e não existe melhor termo para explicar o seu sentimento que este.

 

E as crianças e jovens que morrem sem culpa ou com desculpa? Não imaginamos, eu e os que também têm a sorte de viver em lugares civilizados e preservados dos horrores da guerra, o sofrimento por que passa a flor da Humanidade por esse mundo fora. A indiferença com que os ricos e poderosos, a crueldade com que olham para estes infelizes que sofrem tanto. Porquê? Meninos que são recrutados à força para as guerras, a quem são confiadas armas que matam, meninas estupradas, e meninos, sem perceberem o que lhes está a acontecer. Crianças maltratadas dentro das famílias.

E queixamo-nos quando a vida nos corre mal. Comparemos as nossas vidas com estas poucas recordadas no texto e que são apenas estas entre os milhões de casos. E ensaiemos uma prece a Deus para que chegue o dia em que o lobo será hóspede do cordeiro, a pantera se deitar ao lado do cabrito; o bezerro e o leãozinho pastarem juntos, e um menino os guiar; então pastarão juntos o urso e a vaca, e as suas crias ficarão deitadas lado a lado, e o leão comerá feno como o boi.

O bebé brincar no buraco da cobra venenosa, a criancinha enfiar a mão no esconderijo da serpente. E ninguém agir mal nem provocar destruição no monte santo de Deus, pois a Terra estará cheia do conhecimento do Senhor, tal como as águas enchem o mar. (Cf. Isaías 11,6-9)

 

Ao terminar, ocorrem-me as palavras do poema de Augusto Gil.

 

Que quem já é pecador

sofra tormentos, enfim!

Mas as crianças, Senhor,

porque lhes dais tanta dor?!...

Porque padecem assim?!...

 

E uma infinita tristeza,

uma funda turbação

entra em mim, fica em mim presa.

Cai neve na Natureza

- e cai no meu coração.

 

Orlando de Carvalho