
Em 1922 passa cinco meses
na cama do hospital no Porto, sendo observada pelo médico Abel
Pacheco. Em 1924 volta ao Porto onde é observada pelo médico João
de Almeida que confirma a sua paralisia gradual. Alexandrina vai
andando em médicos mas sem encontrar cura, estes chegam à conclusão
que a sua doença se agrava rá gradualmente até ficar paralisada.
Foi o que aconteceu. No dia 14 de Abril de 1925, Alexandrina ficou
definitiva mente entrevada na cama. Com muita fé, pede a Deus a sua
cura, roga a Nossa Senhora, dispondo-se a partir como missionária,
se ficasse curada. Pede a cura e vive numa esperança profunda de que
o amor de Deus se revelará dessa forma. Vive nesta esperança
durante cinco anos. Começa neste ano a celebração anual dos meses
de Maria, em Maio, e ela sente um grande desgosto por não ter
nenhuma imagem da Mãezinha. É desta forma que Alexandrina trata
Maria, a Mãe de Deus, que é também a nossa mãe. Forma idêntica à
que Jesus ensinou para usar em relação ao Pai, Abba, Paizinho. Em
1928 prepara-se para ir a Fátima, integrada numa peregrinação que
vai da sua terra. Mas o médico e o pá roco impedem-na, argumentando
que se ela está a sofrer tanto que nem permite que lhe toquem, na
cama, que um simples toque, às vezes lhe causa dores horríveis,
como conseguirá levantar-se e empreender tão longa jornada?
Alexandrina concorda.



O pároco traz-lhe de Fátima um terço, uma
medalha, um Manual do Peregrino e água – a água da fonte que
tantas pessoas apontam como milagrosa. O milagre não se dá como
Alexandrina o imaginara. Ela não fica curada da coluna, nem das
dores, nem da paralisia. Alexandrina é protagonista de um milagre
diferente. Ela vai aceitar o sofrimento, a condição de pessoa
imobilizada, com coragem e paciência, e, pedra viva da Igreja de
Cristo, num extraordinário hino de louvor a Jesus e de aceitação
da vontade de Deus. Ela vai acolher com alegria e generosidade a
doença e o sofrimento, oferecendo-se, como vítima imolada pela
humanidade. Na missa, os cristãos unem-se ao sofrimento de Jesus, a
vítima inocente, no louvor ao Pai. Alexandrina procurará
transformar a sua vida num constante acto de louvor ao Pai e
intercessão por todos os homens, pedindo ao Pai que aceite o seu
sofrimento e que o associe ao sofrimento aceite e oferecido por
Jesus. É este oferecimento pessoal de Alexandrina, em união com o
oferecimento pessoal de Jesus, o Cordeiro oferecido em holocausto na
Cruz e presente na Eucaristia, que originou o nome de “Vítima da
Eucaristia”, pelo qual Alexandrina ficou conhecida. Em 1931,
interroga: “Meu Jesus, que quereis que eu faça?”. A resposta que
ouve, repetir-se-á ao longo dos anos: “Amar, reparar, sofrer”. A
partir de 1933, o padre jesuíta Mariano Pinho será o director
espiritual de Alexandrina, até partir, exilado para o Brasil. É ele
que toma a iniciativa de lhe pedir que faça um diário, através do
qual hoje temos conhecimento da rica vivência espiritual desta
mulher. No dia 3 de Julho é substituído o pároco de Balasar. O
novo pároco, padre Leopoldino, entende alterar o sistema de comunhão
de Alexandrina. Em vez da comunhão diária, levar-lhe-á a comunhão
apenas uma vez por mês. Naquele tempo não havia ainda na Igreja o
serviço dos Ministros Extraordinários da Comunhão para visitar e
levar a comunhão aos doentes acamados. Alexandrina, triste com esta
situação, continuará a comungar, embora espiritualmente. A 20 de
Novembro é celebrada pela primeira vez a Missa no quarto de
Alexandrina. A 6 de Setembro de 1934, Alexandrina aceita o convite de
Jesus para viver com Ele a sua Paixão: “Dá-me as tuas mãos, que
as quero crucificar; dá-me os teus pés, que os quero cravar comigo;
dá-me a tua cabeça, que a quero coroar de espinhos como Me fizeram
a Mim; dá-me o teu coração, que o quero trespassar com uma lança,
como Me trespassaram a Mim; consagra-Me todo o teu corpo, oferece-te
toda a Mim, que te quero possuir por completo e fazer o que Me
aprouver”. A 11 de Outubro, Jesus, numa das muitas visões de
Alexandrina, dirige-lhe um convite: “Ajuda-me na redenção do
género humano”. A 20 de Dezembro, Alexandrina compromete-se,
perante Jesus, a zelar por todos os sacrários do mundo onde Jesus
está sozinho, sem ninguém que lhe faça companhia, e a zelar por
todos os pecadores. Alexandrina fará longas vigílias de companhia
a Jesus, sozinho nos sacrários, ao mesmo tempo que entrega as suas
imensas dores pelos pecadores. Contará que Jesus lhe chamou “mãe
dos pecadores”, por este compromisso que ela assume
voluntariosamente. Um poema composto por Alexandrina (ou uma oração
dirigida por Alexandrina a Jesus Cristo):

Ó
meu Jesus, meu Amado,
No altar sacramentado,
Por meu amor encerrado
Nesse sacrário de amor.
Quisera estar contigo, ó Jesus,
Dia e
noite e a toda a hora,
Porém, agora não posso ir,
Bem o sabeis, ó
meu bom Pai!
Estou presinha de pés e mãos;
Mais presa quisera
estar,
Juntinha a Vós no sacrário,
Não me ausentar um só momento.
Ó Sacramento tão adorado
Do meu Jesus, do meu Amado,
Eu Vos saúdo
aqui do leito,
Vinde morar neste meu peito!
Fazei, Senhor,
Dele um
sacrário
Para eu poder,
Ó bom Jesus,
Ser Vossa esposa.
Ó meu
Amado,
Realizai os meus desejos
Que são, Senhor,
Possuir-Vos em mim
Sacramentado.
Em 30 de Julho de 1935 Jesus pede a Alexandrina que o
Papa faça a consagração do Mundo ao Coração Imaculado de Maria,
sua Mãe. Manda Alexandrina transmitir ao seu director espiritual que
escreva ao Papa Pio XI nesse senti do. O padre Mariano Pinho
escreverá nesse sentido ao cardeal Pacelli, Secretário de Estado
do Vaticano. Na Primavera de 1937 Alexandrina está muito doente,
pensam que ela está a morrer. Ela própria conta o que aconteceu:
“Vi entrar no quarto o senhor Abade e, conhecendo-o, disse-lhe: “Eu
quero receber Nosso Senhor”. Ele respondeu-me: “Sim, minha
menina, vou buscar-te uma hóstia por consagrar e, se a não
vomitares, trago-te Nosso Senhor.” Assim o fez. Logo que engoli a
hóstia por consagrar, imediatamente a vomitei. Sua Reverência
estava para desistir em me trazer Nosso Senhor, e alguém disse: “Sr.
Abade, uma hóstia por consagrar não é Jesus”. Foi então que se
resolveu a ir buscar uma consagrada. Recebi-a e não vomitei.
Nunca
mais deixei de receber Jesus Sacramentado por causa desses vómitos.
Quantas vezes entrava o senhor Abade no meu quarto para me dar Nosso
Senhor, e eu a vomitar! Logo que recebia Jesus, cessavam os vómitos,
nunca vomitando antes de passar meia hora. Como era assim, o Senhor
Abade nunca temeu em me dar a comunhão. A crise durou bastante
tempo, mas, durante dezassete dias, estive sem tomar nada,
absolutamente nada. A minha medicina foi Jesus”. Em resposta ao
pedido enviado ao Papa, a Santa Sé questiona o arcebispo de Braga,
que envia um emissário, o padre jesuíta António Durão, para
conversar e interrogar Alexandrina a fim de esclarecer o significado
do pedido. Durante o Verão deste ano o demónio ataca com maior violência Alexandrina, chegando a atirá-la para baixo da cama. São
ocasiões de grande sofrimento para ela e de difícil com preensão
para aqueles que são testemunhas oculares desse sofrer. O padre
Mariano Pinho escreve aos bispos portugueses, pedindo-lhes que
intercedam junto do Papa para que ele faça a consagração do mundo
ao Coração Imaculado de Maria. A Santa Sé de novo questiona o
arcebispo de Braga que envia o cónego Manuel Vilar, para interrogar
Alexandrina sobre o seu pedido. Uma senhora de Lisboa, Fernanda dos
Santos, posta ao corrente da situação de Alexandrina e das suas
absolutas necessidades financeiras, dispõe-se a auxiliá-la daí
para diante. Entre 3 de Outubro de 1938 e 20 de Março de 1942,
Alexandrina viverá todas as sextas-feiras, durante cerca de três
horas e meia, a Paixão de Cristo, percorrendo, e senti do as dores
inerentes ao percurso da Via Sacra. Inexplicavelmente, nestes
períodos, Alexandrina readquiria a mobilidade e rezava de joelhos,
repetindo os movimentos próprios de cada estação da Via Sacra. Ao
longo destes anos, diversos médicos e sacerdotes, entre outras
pessoas, foram testemunhas destes acontecimentos que se sucederam
interruptamente por cento e oitenta e duas semanas. Continuará,
todavia, a viver a Paixão de Cristo até final da sua vida, embora,
após este período, tal aconteça de forma mais íntima. Em 1938 o
padre Humberto Maria Pascoale, que é um salesiano italiano, vem ter
com Alexandrina para a auxiliar, pois ouvira falar dela com muita
falta de respeito. Será seu director espiritual, acompanhando-a até
ao fim da sua vida e entusiasmando-a a continuar a fazer o diário,
entretanto interrompido desde a partida do padre Mariano Pinho. Em
Dezembro, Alexandrina vai pela terceira vez ao Porto para ser
observada por médicos. Desta vez, um psiquiatra é também incluído
na lista dos médicos. Em 1939, por três vezes, Jesus prediz a
Alexandrina o iní cio da II Guerra Mundial, antes de ela se iniciar,
a 1 de Setembro. Alexandrina oferece-se como vítima pela paz. Em
Março o cardeal Pacelli é eleito Papa e Jesus diz a Alexandrina que
é este o Papa que fará a desejada consagração do mundo ao
Imaculado Coração de Maria. Em Junho, na festa do Sagrado Coração
de Jesus, Alexandrina escreve, ela mesma, ao Papa a pedir-lhe a
consagração do mundo. No Verão de 1940, Alexandrina oferece-se
como vítima pela paz no mundo, e em especial em Portugal. Ouve Jesus
garantir-lhe que Portugal será poupado à guerra. Em Setembro,
Alexandrina escreve também ao cardeal Cerejeira e a Salazar. Alguns
bispos apresentam o caso à Irmã Lúcia, pedindo-lhe que interceda,
também ela, junto do Santo Padre. A vidente de Fátima fica confusa,
pois Nossa Senhora pedira-lhe, em Fátima, apenas a consagra ção da
Rússia ao seu Imaculado Coração e não de todo o mundo. Lúcia
reza e pede a Jesus que a ilumine. E obtém dEle a confirmação do
pedido feito a Alexandrina, em Balasar. Em Junho de 1941 Alexandrina
faz a sua quarta viagem ao Porto, para ser novamente observada por
médicos. Em Agosto, o Padre José Alves, que presenciara o êxtase
de Alexandrina durante a vivência da Paixão de Cristo, numa
sexta-feira, publica o facto na imprensa. Este facto vai fazer as
pessoas acorrerem à casa de Alexandrina. Tendo vivido pela última
vez o êxtase da Paixão, de modo visível, a 20 de Março de 1942, a
27 de Março ela está muito mal e recebe os últimos sacramentos. A
partir de 3 de Abril, sexta-feira santa, Alexandrina não voltará a
ali mentar-se, nem de alimentos sólidos, nem sequer de água. A
comunhão diária será o seu único alimento durante treze anos. No
dia 31 de Outubro de 1942, o Papa Pio XII faz final mente a
consagração do mundo ao Coração Imaculado de Maria, através de
uma mensagem transmitida a partir de Fátima, em língua portuguesa.
No dia 8 de Dezembro, o Sumo Pontífice repete a consagração
solenemente na Basílica de São Pedro, no Vaticano. Tanto entre os
sacerdotes, como entre os leigos, as opiniões acerca de Alexandrina
estavam muito divididas. Muitos acusavam Alexandrina de estar a
montar um espectáculo, em colaboração com a mãe e a irmã, tanto
a respeito dos êxtases da Paixão, mas principalmente quando se
começa a divulgar o facto de ela estar há tanto tempo sem comer,
nem beber, conseguindo sobreviver. Alexandrina aceita submeter-se a
um controlo médico ao seu estado de jejum e anúria (não urinar)
absolutos. Entre 10 de Junho e 20 de Julho, Alexandrina fica
internada no Refúgio de Paralisia Infantil, no Porto, vigiada vinte
e quatro horas por dia. Ao fim dos trinta dias acordados, em que
Alexandrina, além de vigiada, foi sistematicamente tentada com
alimentos, a pedido de um médico mais desconfiado, o período
prolongou-se por mais dez dias, até 20 de Julho. Foi passa do um
certificado, assinado por vários médicos de idoneidade
inquestionável, em como durante quarenta dias Alexandrina não tinha
comido, nem bebido nada, para além da comunhão diária, nem
urinado, nem excretado fezes, tendo conservado o peso, a temperatura,
a respiração, a tensão, o pulso, o sangue e as faculdades mentais,
o que é impossível, do ponto de vista científico. A 25 de Junho de
1944, o arcebispo de Braga, cautelosa mente, proíbe a divulgação
dos factos relacionados com Alexandrina Maria da Costa. Todavia, eles
vão sendo conhecidos, e as más línguas continuam a fazer furor. Em
Outubro de 1946 Alexandrina é colocada sobre tá buas duras, pois a
cama macia provoca-lhe muitas dores. Sofrerá sobre estas tábuas até
à sua morte. Durante o ano de 1952, face a um notável aumento de
pessoas a visitar Alexandrina, o arcebispo de Braga proíbe tais
visitas. Continuando as visitas a processar-se e mesmo a aumentar, o
arcebispo anula a proibição no final do ano, o que provoca ainda
mais visitas. Em 1953, as visitas são num número verdadeiramente
despropositado. A 19 de Março, recebe mais de 500 pessoas. A 9 de
Maio são quase dois mil os visitantes. A 5 de Junho são cinco mil e
a 10 de Junho são seis mil os visitantes. No meio de todo o seu
sofrimento, Alexandrina recebe estes visitantes de cara alegre e bem
disposta, e fala-lhes, fala--lhes durante bastante tempo. As pessoas
vão para a ouvir e as palavras de Alexandrina produzem eco nos
corações daqueles que a ela acorrem. Muitos mudam de vida, operando-se neles uma conversão interior. Muitos dos seus êxtases, ao
longo deste ano, são presenciados por estes visitantes e alguns são
gravados. O último êxtase em público ocorre a 25 de Dezembro. No
início de 1955 Jesus diz a Alexandrina que este é o ano da sua
morte. Ela parte, para se juntar ao seu noivo celeste, a 13 de
Outubro de 1955. Os restos mortais de Alexandrina, depositados no
cemitério local, foram trasladados em 1973, para a Igreja Paroquial de Balasar. Alexandrina iniciava sempre o seu dia com esta
oração:
“Sagrado Coração de Jesus, este dia é para Vós”.
Depois de várias orações, dizia à Mãezinha (Nossa Senhora):
“Avé
Maria, cheia de graça! Eu vos saúdo, ó cheia de graça! Ó
Mãezinha, eu quero ser santa! Ó Mãezinha, abençoai-me e pedi a
Jesus que me abençoe!”


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