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quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Fronteira entre a Velha Igreja e a Nova Igreja

Padre Teodoro Marques da Silva e Papa Francisco



Na década entre 1965 e 1975, mais ou menos, fui paroquiano em São João de Deus, em Lisboa. Conheci então o padre Teodoro Marques da Silva. Era um homem e um padre de discurso fácil, mesmo aliciante e transmitia aquela espiritualidade muito característica do canto "Queremos Deus". Aqui uma interpretação actual, muito menos forte que a que usávamos então. * 
Aos Domingos de manhã, a igreja enchia para cinco ou seis missas, pois havia alguma espécie de contágio e a maior parte dos numerosos padres que trabalhavam na paróquia seguiam o mesmo estilo oratório cativante.
Eu gostava muito de ouvir o padre Teodoro na igreja. Ele também falou aos sábados ao fim da tarde na RTP, durante algum tempo, mas eu gostava mesmo era ao vivo.
Por alguma razão, gravei na memória algumas das suas intervenções em homilias, não porque gostasse especialmente delas, mas porque me marcaram.

Veio uma comissão de moradores nas barracas da Av. do Aeroporto, que entretanto foi rebaptizada Av. Almirante Gago Coutinho, visitar-me para pedir que celebrássemos naquele bairro uma missa semanal, uma vez que estão longe desta igreja, querem assistir à missa e nem se sentem bem aqui no meio de pessoas bem vestidas e apresentadas, coisa que eles não podem. Neguei categoricamente. Ora se cada bairro da paróquia viesse, com igual direito, pedir uma zona à porta de casa? Claro que não é viável nem realista atender tal pedido. Aqui é a igreja paroquial e é aqui que celebramos as únicas missas paroquiais.

Noutra ocasião apresentou na homilia um caso muito diferente, mas não tanto.

Vieram uns senhores ter comigo a perguntar-me se, neste tempo de Verão quente que estamos a viver, podiam participar na missa em mangas de camisa. A minha resposta foi rápida e clara:
- Quando for permitida a entrada no Teatro de S. Carlos em mangas de camisa, também será permitido nesta igreja. Até lá, continuamos a vir de casaco e gravata, como no São Carlos.

Só depois de o padre Teodoro ter falecido, muito mais tarde, vim a saber que tinha sido capelão da Praça de Touros do Campo Pequeno. Nem nunca me tinha passado pela cabeça que existisse tal coisa.

Têm-me interpelado algumas pessoas acerca da moralidade das touradas, porque os touros sofrem. Meus amigos, Deus criou os animais para os homens tirarem deles proveito, o melhor que soubessem. Ora, se dá prazer às pessoas o toureio, nada de errado existe, foi para isso que Deus criou os touros.

Recordando intervenções do padre Teodoro, percebo a razão de as ter retido na memória. O discurso apelativo, o seu tom intimista e simpático, agradavam. Mas eu, de facto, gostava da carne e do osso, mas desagradava-me o tutano, embora na altura não entendesse sequer a sua abrangência.

Compreendi mais tarde os problemas que o já Cónego Teodoro enfrentou como pároco na Sé Catedral, para onde foi transferido depois do 25 de Abril.

Nesta reflexão, este padre serve-nos para entendermos as mudanças que se realizaram na Igreja pós-conciliar. O padre Teodoro nunca se evidenciou contra o Concílio, pelo contrário. A paróquia de São João de Deus foi das primeiras a realizar missas dominicais ao sábado – coisa que muitos padres ainda hoje são incapazes de entender, apegados a tradições e desapegados da Tradição Evangélica – e mesmo ao sábado à noite, tal era a maneira como conseguia entender as necessidades das pessoas. Mas já não as entendia no caso dos moradores das barracas da Avenida do Aeroporto.

A Igreja está a percorrer um caminho longo e pedregoso de desapego do mundo, do mundanismo, da riqueza, do estatuto, embora a opção preferencial pelos pobres esteja para muitos ainda num horizonte muito afastado. Felizmente, são já muitos aqueles que a entenderam. Aliás, se essa opção não tivesse existido sempre, pelo menos em alguns, a Igreja já se tinha extinguido.

Com João XXIII, a Igreja iniciou um percurso, a princípio na teoria, no papel. Hoje, com Francisco, não obstante as aclarações ainda necessárias, a opção evangélica é a regra e a Lei. A maior parte das dúvidas que restam, têm-nas aqueles que estão a colocar em primeiro lugar a defesa dos seus interesses pessoais, antes da vontade de Deus. As mentes não podem mudar num dia e o capelão do Campo Pequeno, grande aficionado, não se levanta um dia de manhã a pensar e a declarar que torturar touros é maltratar o que Deus nos deu.
Comparando a prática do padre Teodoro, mais acessível que a do Patriarca Cerejeira ou de algum papa, fica à nossa mercê entender profundamente o que mudou, o que está a mudar e o que é preciso mudar na igreja actual ou no estado a que a Igreja chegou. Temos que regressar às origens do Evangelho, de Jesus, da Palavra encarnada, mas também da Palavra criadora da primeira hora do Cosmos, e à harmonia cósmica. Apelidar este retorno à Casa de Deus, como pretendem alguns privilegiados e alguns desatentos, de New Age e outros epítetos com segundas intenções só pode ser maldade e não nos parece nada cristão.

Orlando de Carvalho




* Queremos Deus

1. Queremos Deus homens ingratos / Ao Pai supremo, ao redentor / Zombam da fé os insensatos / Erguem-se em vão contra o Senhor

Refrão: Da nossa fé, oh! Virgem, o brado abençoai / Queremos Deus que é nosso Rei / Queremos Deus que é nosso Pai.

2. Queremos Deus e a sã doutrina / Que nos legou na sua cruz / Que leve a escola e a oficina, a lei de Cristo, o amor e luz

Refrão

3. Queremos Deus na Pátria amada / Amar-mos todos como irmãos / E ver a Igreja respeitada / São nossos votos de cristãos

Refrão

4. Glória à Jesus na Hóstia santa / que se consagra sob o altar, / e aos nossos olhos se levanta / a Portugal a abençoar